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Sobre a dualidade

Começo esse texto pedindo desculpas aos meus poucos leitores, pois já estamos em junho de 2026, e eu ainda não postei nenhum conto desde dezembro do ano passado. De fato, nos últimos dias, eu estava às voltas com a produção de um conto sobre intolerância religiosa no Ribeirão da Ilha, mas tive que interrompê-la desde que vi, hoje, um vídeo no Instagram. Sim, mais uma vez, estou escrevendo uma crônica autobiográfica, ou seja lá como você queira classificar esse meu formato de texto.


Acontece que esse vídeo trouxe-me à tona reflexões importantíssimas que amadureceram minhas noções e talvez tenham amenizado meus conflitos existenciais, ideológicos e espirituais. O vídeo é um reels da taróloga, bruxa e psicanalista Letícia Sayuri, cujo perfil é @tarodoscaminhos, que, no momento, possui 23,2 mil seguidores. 


Nele, Letícia expõe um comentário indelicado que recebeu em outro conteúdo, em que ela diz haver datas cristãs originadas do paganismo. 


Segue o comentário: “A diferença é que uma celebra o aniversário de Cristo e a outra só cultua a porra do demônio! Foi o vídeo mais merda que eu já vi”.


Letícia, em seguida, diz que esse comentário deveria estar num “museu da psicologia humana”. Pois ele, segundo ela, “resume um conflito que acompanha a humanidade há séculos, que é essa necessidade de dividir o mundo entre o bem e o mal.” Depois, ela segue argumentando sobre como essa visão dualista é problemática.


As argumentações são bem embasadas e têm tudo a ver com as minhas reflexões e angústias. Eu acredito que tanto eu quanto essa bruxa não estamos inventando a roda, e há muita gente refletindo sobre isso atualmente. Notei que ela não falou sobre monoteísmo e politeísmo no vídeo, mas eu, há tempos, costumo associar essa visão dualista ao monoteísmo. De fato, perguntei para ela se essa associação faz sentido e ela disse que faz “total sentido”.


Venho tentando aprofundar essas minhas reflexões há tempos. Acredito que essa ideia de uma entidade criadora como a essência do bem, “totalmente” bondosa e amorosa, pode acarretar muito fanatismo e intolerância. Consigo notar certas semelhanças entre as três principais religiões monoteístas, as “abraâmicas”: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Também acredito ser impossível existir alguma entidade assim.


Além disso, quando penso em Deus, eu não imagino uma entidade que criou tudo, como num conto de fadas, com varinha mágica. Imagino Deus como o “ancestral máximo”, o primeiro, que talvez tenha surgido de uma reação química, do nada, sei lá! 


Além disso, também não acredito que esse Deus “do monoteísmo”, se existe, seja onipotente. Não consigo aceitar que tudo o que acontece seja obra de Deus, como se vivêssemos em um filme. Não gosto quando ficam agradecendo a Deus por tudo de bom que acontece, pois não me faz sentido!


Sendo assim, fica claro, aqui, mais uma vez, a minha simpatia pelo politeísmo. Sim, a crença em múltiplos deuses. Eu, particularmente, acredito que eles existem, mas não acho que a humanidade seja capaz de dizer como eles são.


Em contrapartida, temos o exemplo do Hinduísmo na Índia, o qual, para muitos, é politeísta. Sabemos que lá não é um paraíso na terra, além de haver algumas coisas estranhas como o sistema de castas, por exemplo. É bom, para mim, pensar nisso, pois sei que tenho uma certa tendência a me fanatizar por ideias revolucionárias.


Bom, cada um tem sua crença e isso deve ser respeitado. Mas, para concluir, de modo que não me acusem de parcial e fanatizado, tenho de reconhecer algo em favor do monoteísmo e cristianismo: basta lerem minhas últimas crônicas para conhecerem o meu problema sério com o álcool e outras substâncias. Nos momentos mais difíceis, recorri ao cristianismo, que me ajudou. Porém, penso que essas convicções a gente não escolhe racionalmente, se sente. Esse é meu drama.

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