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Jornada de Sofrimento

Acabei de sair de uma internação em um hospital psiquiátrico, e a primeira coisa que fiz foi reler a minha última crônica, intitulada “Delírio ou Mediunidade?”. Ao fazer isso, o sentimento é de choque e estarrecimento. Consolida-se, assim, a certeza de que uma internação era necessária.


Eu mesmo decidi me internar, pois venho de uma jornada de muito sofrimento, parte deste relatada na minha última crônica. Hoje, eu poderia deletá-la do blog, porém penso que ela pode ter algum tipo de valor.


Pois bem, sendo assim, achei de suma importância que eu viesse aqui tranquilizá-los. Aquilo passou, e eu acredito que recuperei minha lucidez, posto que recebi a alta do hospital, após 15 dias. Agora, tentarei narrar o que me aconteceu, sem culpar ou prejudicar ninguém.


O trem começou a descarrilhar quando fui em dois shows de metal há uns dois meses atrás. Fazia mais ou menos um ano e meio que eu não ia para um “rolê”, e aquilo me marcou profundamente. É difícil ficar sem sair. Enfim, eu gostei e acabei me fanatizando pelo heavy metal e me aprofundando em umas ideias loucas, de revolta contra o deus e o ódio às religiões. Ali, o enlouquecimento germinava. Provavelmente, ali, a química do meu cérebro já devia estar desregulada. Que fique claro: o problema não é o gênero musical.


Dias depois, decidi parar de frequentar as reuniões de Narcóticos  Anônimos, principalmente em função da abordagem mais espiritual do programa. Houveram muitos outros motivos para essa minha decisão, da qual não quero voltar atrás. Em seguida, em pouco tempo, uma depressão fortíssima veio a tomar conta de mim. Eu não conseguia ir para nenhum local público sem sentir intensa vontade de chorar. Era muito sofrimento, pois não gosto que os outros me vejam chorando. O desespero foi tal, que decidi (conscientemente) voltar a fumar cigarro. Pois bem, o tabaco me ajudou de forma considerável, aliviando essa depressão. De fato, se este é o cenário, prefiro fumar do que ficar choramingando por todo lugar que vou.


Amenizada a forte tristeza que eu sentia, meus problemas ainda estariam longe do fim. Foi quando começaram meus delírios religiosos, narrados na minha última crônica “Delírio ou Mediunidade?”. Resumindo, eu achava que o demônio iria aparecer no meu quarto, portanto não conseguia dormir de luz apagada, além de outras coisas. Cheguei a ouvir vozes, as quais hoje suspeito serem o meu próprio subconsciente falando. Foram madrugadas sinistras, em que eu senti um medo paralisante. De fato, a espiritualidade e a religião são problemáticas para mim, afinal não é a primeira vez que tenho surtos relacionados a esses temas.


Nesse momento, acabei retornando ao tratamento psiquiátrico particular e passei a tomar uma nova medicação. Por sorte, o delírio religioso cessou, e eu parecia ter ficado bem, mas o sofrimento ainda não tinha acabado. Era a vez de uma fortíssima paranoia tomar conta de mim, quando eu achava que todos queriam o meu suicídio, inclusive pessoas próximas. Em nenhum momento cogitei me matar, mas achava que a sociedade, amigos e família queriam isso de mim. Imagine só o sofrimento de ter essas ideias rondando a mente!


Eu passei por isso alguns dias até suspeitar que as pessoas pudessem, de fato, me convencer a tamanha atrocidade. Foi quando pedi para me internarem em um hospital psiquiátrico. Lá, devagarinho, eu fui recuperando a calma, a serenidade e a lucidez. Conheci gente nova, interagi, e vivi bons momentos. Ficar esses 15 dias sem celular também foi ótimo. Refresquei a mente. Depressão, ansiedade, paranoia, delírio religioso, ideias autorreferenciais, tudo isso foi amenizado de forma providencial. Ainda bem que me internei e hoje sei que tenho essa carta na manga.


Bom, foi mais ou menos isso que me aconteceu nesse final de ano. Eu filtrei muito, é claro, para não me expor ainda mais, nem expor outrém. Caso queira saber mais, convide-me a um café, gosto muito!

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