Olá, leitor contundente. Estou deveras fudido, não tenho para onde correr. Está cada vez mais claro que eu bebia e usava substâncias para anestesiar as emoções. E, conforme o tempo passa sem as drogas, estou ficando cada vez mais emotivo. É como se uma bomba estivesse para estourar, e eu fosse afogar em lágrimas.
Nesses meses de sobriedade, um filme passa na minha mente a toda hora. As coisas estão começando a fazer sentido.
Pois bem, andei vendo postagens sobre a banda Linkin Park. Vi notícias de um sujeito que perdeu a memória em um acidente e lembrou das músicas dessa banda em um show, ficando muito emocionado. Eu imagino, essa banda me faz sentir muita nostalgia de fato. E, em um ato curioso, acabei ouvindo bastante esse som nos últimos dias, o que me fez lembrar de uma cena da minha infância.
Lá por 2003 ou 2004, quando eu tinha meus 9 ou 10 anos, pedi para minha mãe comprar um CD do Linkin Park, chamado Meteora. Lembro de botar o CD no computador no volume máximo e começar a berrar enlouquecidamente, pulando pelo sofá e jogando as almofadas para o alto.
A Biza, que trabalhava na nossa casa desde quando nasci, assistia a tudo gargalhando da cozinha, com um olhar de quem está achando isso tudo uma maluquice sem tamanho. Ela gostava era do CD
Essa é uma das memórias mais cristalizadas que tenho da Biza. Ela era uma das pessoas mais felizes que eu conheci. Negra, de uma família tradicional do Morro do Mocotó, umbandista, integrante da ala das baianas da escola de samba Protegidos da Princesa, analfabeta, tudo que eu consigo lembrar dela são as gargalhadas e a felicidade. Era só alegria. A gente fazia festa a todo momento.
Em outra memória, lembro-me de tentar alfabetizá-la, um esforço sincero para ajudar. Ela, por sua vez, “dava trela” para o que eu dizia, com o caderno na mesa. Era como quando uma criança pequena nos dá um telefone de brinquedo e a gente finge que atendeu a “ligação” só para agradá-la. Era o que ela fazia comigo quando eu tentava ensiná-la a ler e escrever. Mas, infelizmente, eu percebia que ela se sentia incapaz, coisa que me entristecia muito.
O que eu imagino que tenha entristecido a Biza, por sua vez, foi me ver gargalhando com força ao ver um certo vídeo que explodia na internet da época. Era o do bêbado Jeremias José, que fazia um vexame lendário ao ser entrevistado por um jornalista televisivo. Lembro-me de rir até a barriga doer. Eu não parava de ver o vídeo em repetidas vezes, de forma interminável. Era doentio. Hoje eu sinto que a Biza sabia muito bem o que isso poderia significar. É a sabedoria e o conhecimento da vida. Anos depois eu viria a conhecer o álcool, cometendo vexames e iniciando um caminho destrutivo.
Por fim, lembro-me também de, pulando e agitando, colar o braço dela ao lado do meu e cantar "Figueira eoo" em menção às cores preto e branco do meu time, o alvinegro Figueirense. A faxineira se matava de rir, ainda que fosse avaiana.
Deve ser por isso que eu tenho uma veia antirracista bem forte. E a gente sabe, ou imagina, as implicações disso.
Essas são memórias que eu guardo no coração, e que o Linkin Park trouxe à tona. Bom, a essa altura do dia, ao fim da tarde, eu já parei de ouvir esse som. Chega de sofrimento. Espero que essa emoção diminua.
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