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Fazendo as pazes com a vida

Olá, caro leitor contundente. Escrevo direto de uma clínica de reabilitação, pois senti, aqui, uma forte inspiração e o desejo de registrar minhas reflexões.


Eu já tenho uma certa experiência na área de dependência química. Esta é a minha terceira internação, e eu já participo da irmandade de Narcóticos Anônimos há mais de dois anos.


Chama-me atenção a ignorância que eu tinha em relação ao tema até ingressar no NA. Mas não era só eu. Essa ignorância é generalizada em nossa sociedade.


A mensagem e a literatura de NA é muito apaixonante e cativa adictos do mundo todo (salvando, assim, suas vidas). Um de seus pontos principais é a percepção da doença da adicção como incurável, progressiva e fatal. Isso me ajudou muito, nos meus maiores períodos de sobriedade, a admitir que eu sou impotente em relação às drogas.


Devido a esse obscurantismo da sociedade em relação à mensagem de NA, você pode me pedir para resumir tudo em poucas palavras. É isso que eu estava refletindo.


Até onde eu li e entendi, em poucas palavras, o NA defende que nós não conseguiremos parar de usar drogas enquanto não fizermos as pazes com a  vida e, consequentemente, com o poder superior (Deus). É uma questão de aceitar a vida como ela é e nos voltarmos para o lado bom.


E isso é muito significativo para mim, pois, como você pode constatar em meus textos, eu tenho versões contrárias, como se fossem diferentes personalidades que seguem diferentes ideologias, doutrinas e estilo de vidas.


Uma dessas vertentes do meu “eu” é revoltada contra Deus e não aceita a vida como ela é. Procuro força em mim mesmo e acho que não preciso de ninguém para resolver meu problema. Note que eu nunca passei perto de um ateísmo declarado ou enrustido, e isso assusta.


Posto isto, estou encurralado nos rumos de minha vida. Começo a notar que eu não vou resolver minha questão com a droga enquanto não me curvar a Deus, praticando, assim, um pouco de humildade.


Nessa última recaída, quando a “água bateu na bunda” e vivi momentos de muito sofrimento, instintivamente voltei a orar. Tinha abandonado a espiritualidade e até zombado dela. Agora, estou sinceramente arrependido e espero não me perder do lado bom da vida.

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