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Tragédia na Festa da Laranja

Marcelo, um jovem de 18 anos, estava atormentado pela sua mente barulhenta e obsessiva pela cocaína. Ele não conseguia ficar 5 minutos sem pensar naquele prazer artificial e em formas de obter a droga. O rapaz morava com sua família no bairro Trindade, de Florianópolis. Era inverno do ano 2000. Ele estava na sala de casa, vendo os programas de auditório famosos da TV da época, enquanto sua mãe fazia faxina no banheiro mais próximo.


O jovem, com os olhos arregalados, de repente, olhou pro videogame e pensou, pela milésima vez, em levar no morro para trocar pela droga. Mas ele estava queimado entre os traficantes, pois ficou um bom tempo devendo uma boa grana. Foi seu pai que o salvou e foi pessoalmente no morro pagar a dívida. Justamente por isso, Marcelo estava há 5 dias sem cheirar.


O rapaz, naquele momento, estava começando a fazer algo inédito para se acalmar: a oração. Essa medida o acalmava, mas nunca era definitivo. A obsessão e compulsão pareciam serem mais fortes. De qualquer forma, por meio da reza, ele estava há 10 minutos sem pensar na droga, quando decidiu ir ao banheiro. Ao entrar, sentiu de imediato o cheiro de um produto de limpeza novo, que sua mãe nunca tinha usado. O produto tinha o cheiro exato do gosto da cocaína quando era “batizada” ou ruim. Pelo menos no morro que ele costumava comprar.


Mesmo lembrando daquele gosto maldito, que o fazia vomitar quando cheirava, Marcelo voltou a pensar na droga, naquele prazer absurdo e nos “bons” momentos que ela trouxe. Então foi fumar um cigarro no jardim, pois sua família não gostava do cheiro de fumaça dentro de casa.


Por um grande azar, na sua rua, a 3 casas de distância, havia um boteco bem simples. Marcelo não frequentava o estabelecimento, pois achava muito “fuleiro” o pessoal do local. Porém, dessa vez, em completa abstinência e desespero, o rapaz começou a considerar ir ali jogar uma sinuca com os caras. Ele podia ouvir, do jardim, o som das garrafas chacoalhando nas caixas, o barulho da sinuca e as gargalhadas estridentes dos bêbados. “Que felicidade era aquela?”, pensava Marcelo.


Ele não queria ser visto com os clientes do bar, mas seu espírito agonizava, e ele precisava de qualquer tipo de anestesia. Então o rapaz foi se arrumar para ir ao boteco. Sua mãe, nervosa, questionava a decisão. Todos sabem que o álcool baixa a crítica, ainda mais de um dependente químico em forte abstinência. Pois bem, Marcelo empurrou a mãe, que bateu na parede e chegou a se machucar.


Já no bar, enturmado com os caras, o desespero do rapaz foi amenizando. A cada garrafa, mais tranquilo e feliz ele se sentia. Logo, depois de 3 litros de cerveja, lá estava ele caindo na gargalhada com os outros bêbados. “Álcool é a solução” pensava. 


Já estava considerando partir para a próxima garrafa quando, na rua, passaram, de carro, dois amigos do bairro. Avançaram um pouco, frearam e deram uma ré devagarinho. Da janela, o amigo falou alto:


  • Que que estás fazendo aí, Marcelo? Irmão, vamos juntos na Festa da Laranja, tá começando lá. Vai ser massa!


Marcelo, na hora, perdeu o sorriso e ficou bem sério, considerando. Com uma mão na boca e outra no cabelo, raciocinou: os caras do morro da Serrinha, que queriam matar ele, possivelmente estariam lá. Mas, por outro lado, a dívida já estava paga, não é? Então, rapidamente, o rapaz largou o copo na mesa, deixou a quarta garrafa para os bêbados, e correu para o carro dos amigos.


Essa turma dele, da Trindade, podia não ser do morro, mas era composta de verdadeiros marginais. Gostavam de fazer merda. E logo partiram em direção à praça Santos Dumond, ao lado da UFSC, em frente à Paróquia Santíssima Trindade. Foram bebendo vodka e fumando maconha. Marcelo não gostava muito da erva, mas, naquele momento, valia qualquer coisa para anestesiar.


Chegando lá, a praça estava cheia de gente. Famílias, jovens, crianças, brinquedos de parque de diversões, barraquinhas, quentão, cocada, fogos de artifício. No começo, os 3 amigos tentaram se comportar, em respeito às famílias. Porém, conforme ficava mais tarde da noite, o público começava a mudar.

Marcelo não imaginava que a raça da Serrinha estava do outro lado da praça. Tinha 2 garotas conversando com ele e seus amigos, portanto ele não queria sair dali. Até que chegou um quarto amigo, completamente eufórico e transtornado, com os olhos arregalados. Ele pulou de alegria ao ver Marcelo, abraçou-o e disse em seu ouvido:


  • Pega essa, mô quirido! É a pura, jogador! Outra hora tu me paga, agora dale!


Marcelo, mesmo chapado e alcoolizado, teria conseguido recusar a oferta sinistra, mas segurar a peteca (pacotinho de cocaína) foi demais para ele. E então, a partir do momento que ele decidiu cheirar, ele era capaz de passar por cima de tudo para usar a droga quanto antes. Correu pro banheiro químico, furou a fila de forma violenta e, ao entrar, já foi limpando uma superfície para depositar o pó. A pressa era tanta que ele não conseguiu nem preparar a carreira, cheirou um montinho inteiro da droga, sem ter uma noção da quantidade.


Enquanto isso, na festa, uma intriga começava. É porque o amigo eufórico de Marcelo, escroto e inconsequente, passara a mão na bunda de uma bela garota. O que ele não sabia é que ela, uma patricinha de olho azul, era namorada de um dos malacos da Serrinha. Até aí, tinham 2 amigos da garota discutindo com os 3 amigos de Marcelo.


Marcelo, logo saindo do banheiro, já sentia a visão embaçar, a pálpebra tremer, o coração acelerar. Já havia acontecido isso antes, o que preocupou o viciado. Ele olha para a discussão e não reconhece os sujeitos que estão discutindo com seus amigos. Sendo assim, ele vai tentar separar a briga.


Enquanto isso, seu coração vai acelerando.


A notícia do assédio foi transmitida rapidamente para a raça da Serrinha. Logo chegaram 10 malacos, traficantes e bandidos. Quando um deles, namorado da patricinha, viu Marcelo, cheirado e transtornado, ordenou a todos para espancar os 4 amigos.


Marcelo, em overdose, não sentiu a dor do espancamento. Morreu no susto.

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