Três amigos, jovens de 18 anos, saíam do carro estacionado em uma das ruas do Pântano do Sul, na Ilha de Santa Catarina. Era intenso o cheiro de maconha que saía do veículo, mas isso não preocupava o trio. O que os estava deixando encucados era se, naquele local, era permitido deixar o carro. João, o mais rebelde e mandão do grupo, não demorou para “dar ordens” aos companheiros:
Não vai dar nada isso aí, porra! Vamo logo queimar mais um na praia, antes de ir pra trilha!
Os outros dois, Pedro e Sérgio, se entreolharam por alguns segundos. No fundo, todos os três sabiam que podiam se incomodar, tanto pelo carro quanto pela maconha. Mas ninguém queria ser o “chato” do passeio e dar uma de seguidor das regras. Então eles, depois de ponderarem um pouco, foram se direcionando à praia, onde fariam um “esquenta” antes de irem para a trilha. Era um dia de semana ensolarado de inverno, e a praia estava bem vazia. Só estavam lá pescadores e funcionários dos restaurantes.
Pedro, o mais paranoico, logo notou duas crianças brincando em um barraco de pesca próximo, mas não comentou nada. Eram filhos de pescadores. Sérgio, por sua vez, era, naquele momento, o responsável por preparar o cigarro e, portanto, conforme a regra, era quem devia acender o baseado.
Sérgio apalpava os bolsos, em busca de um isqueiro, preocupado com a possibilidade de fazer a trilha sem fogo, quando João ofereceu um isqueiro novo (e diferente). O bolador e acendedor agradeceu, notando um modelo de isqueiro que nunca vira antes. Pois bem, quando Sérgio foi apertar o botão, subiu uma chama cinco vezes maior que o normal, queimando o seu nariz e fazendo-o soltar um grito, de certa forma, agudo.
Pronto. Era o que faltava para o trio ter os famosos ataques de riso. Eles eram maconheiros iniciantes e, nessa fase, os ataques de riso costumam ser recorrentes. Eles riam até faltar ar, até a barriga doer. Pedro e João apontavam para o nariz de Sérgio, tentando avisar que ficara marcado, mas não conseguiam, pois a voz não saía. Não conseguiam completar sequer uma palavra.
As risadas não pareciam ter fim até que Pedro, o paranóico, empurrou os dois e apontou em direção aos barracos de pesca. Sete pescadores, em grupo, encaravam a cena. Estavam, evidentemente, incomodados. Depois de alguns segundos, um pescador, sozinho, veio em direção ao trio e avisou:
Não tão vendo ax criança aqui, porra?! Aqui é lugar de família! Se vocêx não sair daqui agora, vocêx vão tomar um pau!
João pensou em responder, mas não foi tão ousado. Pedro, de uma “good vibe” extrema, partiu para uma “bad vibe” total. Já Sérgio era o mais sensato e logo convocou o grupo para se retirar.
O carro, restava a dúvida se o deixariam estacionado no local proibido. Pedro e Sérgio se voltaram contra João, que não queria pagar pela vaga no estacionamento privado. Depois de alguns minutos de discussão, finalmente retiraram o carro e foram para um estacionamento privado.
Tiveram ainda a ideia de fumar outro cigarro de maconha no estacionamento, mas, como já estavam chapados, foram para o início da trilha. Conforme alguns minutos passavam, o clima ruim foi amenizando e o trio voltou a “se divertir”, inclusive o paranoico Pedro.
Outro ataque de riso estaria por vir. Um deles avista um pássaro belíssimo, azul, aconchegado em um galho. O pássaro inicia voo e passa por cima de Sérgio. O jovem, boquiaberto, contempla a visão do voo esplêndido, mas o animal lança fezes, que caem exatamente na boca do garoto.
O ataque de riso dos outros dois é imediato, ao passo que o azarado vomita apoiado em um guarapuvu. E o assunto do resto da trilha deixaria de ser o quase tumulto com os pescadores, passando a ser sobre o “milagre do mal”: a cagada na boca de Sérgio. Este, por sua vez, depois de muita água mineral, começaria a rir de si mesmo também.
E assim, percorreram o resto da trilha, que estava vazia. Chegando à praia da Lagoinha do Leste, notaram que também estava tudo deserto. Faz sentido, afinal, era um dia de semana.
Posto isto, o cronograma já estava feito: iriam subir o Morro da Coroa e, lá, tomariam grandes quantidades de ácido (LSD), o qual, reza a lenda, era lá da Califórnia.
Anoitecia, e logo fizeram o ritual: fumaram mais um cigarro de maconha aos pés do Morro da Coroa e subiram. Lá em cima, onde há uma vista exuberante, armaram duas barracas e comeram empanados e outros salgados que haviam comprado em uma padaria. A água se esgotava, mas era só uma madrugada, então o trio não se preocupava.
Chegava a hora de pôr as caixinhas de som para funcionar. Estavam economizando bateria para a melhor parte. E então os caras colocaram a música eletrônica mais frenética possível. João, rapidamente, foi tirando da mochila as cartelas de LSD e os pacotinhos de cogumelos “mágicos”.
Estavam os três jogados na vegetação, ao som daquela música maluca, e um vento frio começava a soprar. Pedro, preocupado, questionava os companheiros:
Acho que essa porra não bateu, raça.
João pedia para o companheiro esperar, garantindo que, logo, ele ia sentir algo. Até que Sérgio apontou para o céu, dizendo:
Ô raça, acho que chapou pra caralho aqui, tô vendo um bagulho ali!
Então, um ponto de luz vermelha foi ficando mais forte no céu, e os outros dois rapazes também viram. Em pouco tempo, a luz se movimentava em uma velocidade absurda. E os três, apavorados, desligaram as caixas de som e berraram desesperados:
Eu também tô vendo! Não é chapaceira! Fudeu, raça!
Um deles teve a ideia de filmar a cena, mas todos os celulares estavam travados. A nave aproximou-se um pouco mais, revelando seu formato circular. O trio não sabia o que fazer, apenas berrar e pedir por misericórdia.
Pedro surtou para nunca mais voltar à sanidade mental. Sérgio e João nunca mais consumiram alucinógenos.
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