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Túnel Maldito

Centenas de meninas brincavam felizes no pátio do Colégio Coração de Jesus, localizado no centro de Florianópolis, em um dia ensolarado de 1964. Na época, só meninas podiam estudar lá. O pátio estava uma correria só, e a maior parte das crianças brincavam de pega-pega e esconde-esconde. Uma freira, que atuava lá como inspetora, tentava manter controle da situação.


Em meio ao caos infantil do recreio, três garotas cantarolavam e batiam as mãos em um degrau, perto de uma parede. Os nomes delas eram Clotilde, Rita e Gorete. A Clotilde, no íntimo, cantava com um forte nó na garganta, em profunda angústia, pois estava proibida de “correr muito”. Seu médico, havia pouco tempo, tinha descoberto um problema em seu coração e logo alertou seus pais.


Clotilde, atormentada, pediu para parar a brincadeira, virou-se para o chão, respirou e mentalmente perguntou para os céus: “O que fiz para merecer este castigo? De uma hora para outra não posso mais brincar!”. A vista e o barulho da criançada correndo freneticamente para todos os lados deixava o momento muito dramático para ela. Vivia forte emoção.


Inconformada, Clotilde esperou o nó na garganta suavizar um pouco, respirou fundo e fez um convite para as amigas:


  • Rita! Gorete! Vamos brincar de amarelinha! Agora que lembrei dessa brincadeira. Meus pais não falaram de amarelinha quando me proibiram as coisas!


Rita e Gorete lentamente se entreolharam indecisas. Elas estavam preocupadas com a amiga, mas também achavam que pular amarelinha era uma brincadeira inofensiva. As três gostavam muito de brincar juntas, e a notícia do médico de Clotilde foi um baque para o grupinho.


Rita e Gorete, pensativas, estavam na dúvida. Então Clotilde levantou-se do degrau, respirou fundo, lutou contra as emoções e bateu a mão na parede, exclamando:


  • O meu pai deixou eu brincar de pula-pula no sofá lá de casa! Dá no mesmo, gente!


Dito isto, as duas amigas concordaram com o raciocínio e correram de imediato junto à Clotilde, em direção ao local da amarelinha. A garota cardíaca estava, literalmente, arriscando a vida, pois não sabia se, de fato, ela podia pular amarelinha. Por outro lado, quando a brincadeira começou, e ela deu os primeiros pulos, Clotilde sentiu um prazer infinito, como se sua alma estivesse livre para voar e vibrar na frequência ideal. Era o melhor momento da vida da garota até então. 


Clotilde pulava, com um sorriso gigantesco, quando sentiu uma mão vindo por trás em direção ao seu ombro. A menina já sabia do que se tratava, era óbvio. O momento lúdico estava finalizado de forma definitiva. A freira, já com seus 70 anos, estava com a face avermelhada, as sobrancelhas inclinadas indicando fúria. A menina Clotilde sentiu um frio na barriga e não sabia o que fazer, ou o que falar.


Alguns segundos de aflição se passaram até que a religiosa arregalou os olhos e disparou:


  • Clotilde, você ainda não entendeu que estás proibida de correr?! Eu não quero me incomodar contigo! Aprende a aceitar a sua condição, garota! Ou queres morrer?


A menina cardíaca sentiu um certo alívio: achou que seria expulsa da escola. Logo a freira foi resolver outros problemas e as três garotas ficaram ali pensando em como se divertir. Pois bem, perto do local do pátio onde elas estavam, tinha um corredor misterioso. Elas já conheciam a famosa lenda do antigo túnel que ligava o Colégio Coração de Jesus à Catedral Metropolitana de Florianópolis. Naturalmente, a brincadeira, sem exercícios físicos, estava garantida!


As meninas, cheias de adrenalina, entraram no corredor e começaram a imaginar qual seria a porta do túnel. A última porta era sinistra e muito envelhecida. Tinha um cadeado enorme e enferrujado anexado nela. Clotilde, em busca de uma diversão, resolveu bater o cadeado, vandalizando de certa forma. As três morriam de medo de avistar espíritos no local. A mais corajosa era Clotilde, pois estava proibida das outras brincadeiras.


Clotilde batia, pela última vez, o cadeado na porta, quando ele desmanchou, caiu, e a porta se abriu, rangendo muito. As três ficaram boquiabertas, cheias de adrenalina. Rita e Gorete já estavam satisfeitas, mas Clotilde, de forma astuta, convenceu-as a acompanhá-la.


Elas entraram e, de fato, parecia um túnel macabro. Era tudo sujo, enlameado, com um cheiro cadavérico e de mofo. Deram cinco passos até que o medo tomou conta e elas tentaram voltar. Quando estavam chegando na saída, a porta, que estava encostada, se fechou repentinamente, acabando com a luminosidade. Na escuridão, sob o cheiro cadavérico e horripilante, elas berraram na porta até a garganta doer.


O desespero das três foi tamanho que, na falta de socorro, uma delas, insana, resolveu ir em direção ao lado contrário. As outras três, por sua vez, no desespero, acharam que essa poderia ser a saída e a seguiram. Foram correndo até que seus corpos foram paralisados. Só conseguiam respirar e olhar uma luz que surgia bem fraquinha a uns três metros de distância.


O clarão transformou-se lentamente em linhas alvas e diáfanas, que ondulavam suavemente pelo espaço. Conforme o tempo passava, as linhas cresciam e ganhavam força. Logo essas linhas começaram a formar duas silhuetas.


Era uma tremenda tortura a vontade paralisada de berrar das garotas.


Logo as silhuetas tomariam a forma de um Padre e uma Freira. Essa, desesperada, exclamou:


  • Oh, Jesus Cristo! Fomos descobertos! Agora deus sabe da gente, Manoel! Eu não quero ser julgada!


O Padre também estava em forte emoção e falou:

  • Oh, inferno, é tudo culpa dessas malditas crianças!


O padre se preparava para atingir as meninas de alguma forma, quando a porta ao fundo se abriu bruscamente, iluminando o local. Nessa hora, as meninas recuperaram os movimentos e correram desesperadas para a luz, chegando o quanto antes na porta, onde estava a freira e um zelador. Ali, a freira zangada exclamou:


  • Garotas do inferno! Onde ficou a Clotilde?

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