No interior da Ilha de Santa Catarina, final do ano de 1850, um grupo de jovens e crianças escravizados trabalhavam duro num engenho de farinha de mandioca. Entre eles estava Tadeu, de 13 anos, que gostava de descascar as raízes, pois era a parte que fazia com mais facilidade. Ele estava com um “galo”, ou inchaço, na testa, resultado de um ataque de fúria de seu pai. Motivo? O rapaz não conseguia arrancar as plantas da terra numa velocidade boa, ao contrário dos outros rapazes de sua idade.
Com sua faca, tirava as cascas das raízes com destreza, e o tempo passava de forma veloz. A concentração de Tadeu só foi interrompida com a chegada de seu primo mais velho, que chegava puxando fumaça de um cachimbo freneticamente. O primo estava acelerado e não parava quieto. Pensou em zombar do galo na testa de Tadeu, mas tinha uma notícia bombástica:
Ocês não vão acreditar! O Paulinho ali da fazenda do seu João me disse que os branco pararo de trazer nosso povo lá das África, do outro lado do mar! É uma tal de “Lei Eusébio”. Tão tudo falando disso nos jornal que vem do Rio de Janeiro!
A notícia atingiu Tadeu como um choque, e o fez sentir um fogo no coração e um frio na barriga. Mas uma série de pensamentos logo o desanimaram:
E o que isso vai mudar pra nós, primo? Tás aí intizicado pra nada!
“Tudo tem um começo”, pensou o primo, mas não falou nada para não parecer iludido. Ao invés disso, comentou sobre o galo na testa de Tadeu. “Vai virar boi”, disse.
Mas a notícia bombástica do Rio de Janeiro voltaria a ser assunto naquela casinha de madeira, e o grupo de jovens escravizados só falava disso. Aquele momento foi especial e prazeroso para Tadeu, pois o assunto era empolgante, ao passo que trabalhava em algo que sabia fazer bem feito: descascar a mandioca. Fazia meses que não se sentia tão bem.
Aquele momento lúdico só viria a terminar com a chegada de Gustavo, o pai de Tadeu. Todos sabiam que o homem não estava bem-humorado, e o silêncio predominou. Gustavo olhou bem para o grupo de filhos, sobrinhos e outros e escolheu Tadeu para uma atividade: ajudar na mudança dos seus patrões entre duas casas no centro da cidade.
Gustavo sabia que todos ali gostariam de ser escolhidos, pois seria um passeio sair um pouco do lugar onde moravam. Além disso, os patrões não eram maus com os negros. Posto isso, o homem escolheu Tadeu, pois estava levemente arrependido da agressão. Achava que tinha exagerado com o garoto. Mas jamais pediria desculpas. A reparação seria levá-lo para ajudar naquela mudança.
Ao nascer do sol do dia seguinte, Tadeu e Gustavo já estavam na carroça carregada de farinha seguindo rumo ao centro da cidade. O garoto adorou a viagem, principalmente quando pararam ao lado de uma laranjeira para saborear as frutas. Foi outro momento bom em dois dias. Estava com sorte o garoto, agora só restava torcer para não ser hostilizado na cidade.
Quando chegaram, logo foram encarregados de carregar os móveis e outras atividades. Trabalho duro, como de praxe, mas o passeio pelo centro valia a pena.
Tudo correu bem até a noite. Gustavo e Tadeu estavam acomodados numa casinha nos fundos da casa dos patrões. Uma pequena senzala. Exaustos, estavam se preparando para dormir. O pai já estava de olhos fechados quando o garoto, silenciosamente, foi para o bosque que separava a casa dos patrões da casa onde os escravizados dormiam. Tadeu sabia que poderia ser surrado se fosse descoberto, mas uma curiosidade aventureira tomou conta de si.
Caminhou em direção a casa dos patrões, chegou à janela, escondido, e espiou para dentro. A família de brancos rezava o terço mariano à luz das velas. Os “Ave Marias” repetiam-se numerosas vezes, e Tadeu sentiu uma identificação, uma energia boa. O tempo foi passando, e, naturalmente, Tadeu começou a acompanhar a reza, dizendo os Ave Marias. Ele queria participar daquilo, mas, no fundo, sabia que não podia ser descoberto.
Logo antes que ia se levantar para fugir silenciosamente para a casinha, tropeçou e fez um barulho. Os brancos, de início, apavoraram-se, e o pai de família, chamado Francisco, levantou-se pronto para espancar o menino. Entretanto, a sogra do homem furioso segurou-o, dizendo:
Francisco, por Deus, o mulato estava rezando também, não notaste? É um guri bom!
A esposa de Francisco confirmou a versão da mãe. Ela realmente vira o menino orando, caso contrário, incentivaria Francisco a atacar o rapaz. O pai de família, então, botou as mãos na cabeça e olhou para o alto. Tinha que pensar rápido: O que fazer?
Antes que o garoto criasse coragem para correr de volta, Francisco gritou:
Espere um pouco, mulato!
O pai de família aproximou-se do menino, o qual estava tremendo as pernas de medo. Ainda com um terço em uma das mãos, Francisco acalmou o rapaz:
Estavas rezando o terço com a gente, garoto? Pois pegue esse terço de presente e volte para cama antes que seu pai descubra!
Tadeu, aliviado, pegou o terço e voltou para a casinha, sem acordar o pai. Escondeu o terço debaixo da cama e, enquanto refletia deitado sobre o que ocorrera, a família de brancos debatia sobre o ocorrido. A esposa de Francisco argumentou:
Ele é preto, mas é um guri do bem! Devíamos ajudá-lo, pela Virgem Maria! Ele não é como os outros!
E o esposo respondeu:
De fato, senti que a devoção do rapaz era verdadeira. Amanhã verei o que fazer!
A noite passou serena e tranquila para todos. Sonhos angelicais confortavam o sono dos brancos e dos pretos que dormiam nas casas daquele grande terreno. Na manhã seguinte, Tadeu e seu pai colhiam bananas das árvores para comer, quando Francisco veio caminhando da casa dos brancos. Os pretos logo se explicaram:
Estamos famintos, patrão! Mas logo íamos voltar ao trabalho!
Francisco aproximou-se dos dois pretos e olhou nos olhos do garoto preto. Esse, por sua vez, sentiu conforto no olhar do branco. Não era hostil, como de praxe. O menino sentia um misto de medo e esperança, além de frio na barriga. Alguns segundos se passaram no silêncio dramático. Gustavo angustiava-se, sem entender o que estava acontecendo ali. Até que Francisco, o patrão, agachou-se e perguntou ao menino escravizado:
Tadeu, tens interesse em aprender a ler?
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