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Por que escrevo?

Ainda ontem, tive consulta com minha psicóloga, da qual saí muito reflexivo. Quem faz terapia sabe o quanto ela nos faz pensar sobre a vida. Por vezes, são reflexões prazerosas, outras nem tanto. Horas depois, já em casa, esquentei um chá, sentei na poltrona de casa e peguei algo pra ler. Ali, com um livro aberto em mãos, mais pensamentos vieram à mente, e logo me flagrei sonhando acordado. A questão era: por que escrevo?


Não é a primeira vez que discorro sobre isso, porém eu mudei e, atualmente, tenho um entendimento mais maduro (espero). Isso é uma das mágicas da literatura: a gente põe nossa subjetividade no papel, e ela se modifica, pois sempre estamos nos transformando.


Bom, não tem como responder essa questão sem citar as histórias em quadrinhos. Já na infância, devorava as revistas da Turma da Mônica e da Disney. Depois, lá pelos 11 anos de idade, lembro direitinho o momento em que migrei para leituras mais “maduras”. Estava vasculhando as HQ’s de uma banca, quando avistei a capa de uma edição que me chamou atenção. Era uma perseguição em um lugar semidesértico, em que um branco de camisa amarela cavalgava freneticamente, fugindo de um grupo de indígenas armados. Era uma revista de faroeste chamada Tex.


Dali em diante, por alguns anos, eu li compulsivamente o Tex. Eu realmente viajava, era uma sensação indescritível de desbravar aquele universo, coisa que eu não consigo mais sentir nos dias atuais. Depois, de forma natural, fui conhecendo os outros personagens da editora do Tex, uma marca italiana chamada Bonelli Comics. Eles tem vários outros títulos e outros personagens de temáticas diversas.


Essa experiência representou um salto para o nível do meu Português, e sabe-se lá de que outras formas os quadrinhos contribuíram na minha adolescência.


Depois de alguns anos, descobri as histórias adultas e de terror do selo Vertigo, hoje extinto. E eu também li esses títulos de maneira compulsiva. Não tinha dinheiro para ler tudo o que queria.


Hoje noto que, quando entrei no ensino médio, perdi a constância com essas leituras. Eu não tinha maturidade para perceber o quanto elas me ajudavam e me faziam bem.


Até ali, acredito, hoje, que eu já tinha adquirido uma base para a escrita, a contação de histórias e a construção de narrativas. Eu só precisava de um “empurrãozinho” para começar a praticar isso, e ele veio de forma lenta e gradativa: minha mãe me sugeriu prestar vestibular para Jornalismo.


Eu não sabia o que era Jornalismo. Fiz o vestibular sem pensar muito. Era uma época que eu estava bem politizado, talvez seja isso.


O fato é que eu passei! Na décima segunda chamada, mas passei! Dali em diante viriam oito disciplinas de redação, além das outras, que também exigiam muita escrita. Jornalismo não é só televisão e rádio, muito pelo contrário. 


Por outro lado, nessa época, comecei a fumar muita maconha. Não valorizei o curso, não levava a sério e era muito imaturo. Mas alguma coisa os professores conseguiram me ensinar e me incentivar. Eu começava a notar a importância de ler bons livros. Mesmo assim, só pensava em fazer o mínimo para passar nas disciplinas, e foi muito difícil para mim.


Anos depois, apesar de paranoico e delirante, consegui concluir o curso. Em seguida, refleti sobre o meu futuro profissional. Naturalmente, comecei a pensar em migrar para o marketing, em trabalhar como redator. Eu já tinha feito um blog, onde tinha postado alguns textos redigidos no curso de Jornalismo. Poderia incluí-lo em meu currículo. 


Sem saber direito, eu estava seguindo o caminho da escrita.


Entretanto, de forma trágica, eu progredi com as drogas, o que dificultou demais minha vida. Não consegui me profissionalizar. Desde então, eu cheguei a ler boa literatura e escrevi alguns textos, mas nunca tive constância.


É triste, sim, mas estou procurando mudar. Nesse ano de 2025, escrevi e li como nunca antes. Estou sóbrio e lúcido. Sei o que quero. Na escrita literária, consigo expressar minha subjetividade, mostrar ao mundo quem eu sou. Dizem que essa prática é terapêutica, e eu acredito muito nisso. Vejo que quando narramos algo no papel (ou tela) amadurecemos a nossa visão sobre nós mesmos. É autoconhecimento. Sem contar que é prazeroso: o tempo passa voando quando escrevo, e eu logo sinto uma paz.


Não é à toa que a irmandade de Narcóticos Anônimos utiliza a escrita em seu programa. Nele, é feito uma coisa chamada “trabalho de doze passos”, por meio de um guia de passos. É um livro. São textos e perguntas para ler e escrever, conforme cada passo, em uma ordem planejada. O quarto passo, por exemplo, tem um enfoque ainda maior na escrita. Nele, a pessoa deve escrever um “profundo e destemido” inventário moral de si mesmos.


Bom, depois de relatar tudo isso, ao reler, consigo fazer uma autoanálise melhor. Consigo aprofundar minhas ideias e meus pensamentos sobre mim. Mais que nunca, percebo que tenho inúmeros motivos para escrever mais. Tenho uma boa base e já não sou exatamente um iniciante. É por isso que eu escrevo.


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