Pular para o conteúdo principal

A Vingança Bruxólica

Às 10 da manhã, Pablo, no balcão, examinava as contas do seu Bar e Restaurante. O estabelecimento, chamado Vieira’s, ficava de frente para a praia da Barra da Lagoa, em Florianópolis, muito antes da voraz especulação imobiliária descobrir o local. Com caneta e calculadora em mãos, ele franziu repentinamente as sobrancelhas e ficou muito sério. Apertou os lábios de uma forma que assustava.


O pequeno empresário ficou assim, pois constatou a imensa dívida que um certo cliente acumulava há mais de dois meses. Por sinal, o devedor estava no local naquele exato momento.


Um negócio cuja proposta é ser tanto um bar quanto restaurante tem algumas implicações especiais. Por vezes, os clientes do almoço entram em conflito com os da bebedeira. Na maioria das vezes, são os beberrões que estão errados, mas Pablo não se importa. O importante para ele é o lucro. 


No período da manhã, até mais ou menos 11 horas, são os bêbados mais assíduos e doentes que frequentam o local, mas normalmente eles ainda não estão muito alterados nesse horário. Porém, quando estão, costuma haver encrencas. Logo começa a chegar o público do almoço, o que exige muito jogo de cintura para Pablo manter a normalidade no estabelecimento. Depois, à tarde, volta-se à proposta de bar e assim perdura até o fim de tarde.


É por isso que, naquela manhã, Pablo pensou muito bem antes de tomar qualquer iniciativa quanto ao alcoólico devedor. Ora, eram 10 da manhã, e os clientes do almoço costumam chegar às 11, portanto ele tinha 1 hora para brigar com o sujeito. O sangue quente então falou mais alto, e o dono do bar olhou por alguns segundos o decrépito cliente até que criou coragem e deu logo um tapa na mesa.


  • Porra, João, não fode! Já passou 2 meses e tu tá me devendo 2 salários mínimos. Tu acha que sou trouxa de pensar que um merda como tu vai conseguir pagar?


A reação do alcoólico foi de total submissão, culpa e arrependimento. De fato, ele costuma sentir uma espécie de serenidade durante as manhãs. Uma falsa e ilusória serenidade. Talvez, se isso acontecesse no período da tarde, com mais álcool no sangue, a história seria outra. O devedor era um pescador experiente da região, de família tradicional, e não permitiria que seu orgulho fosse ferido dessa maneira. Sendo assim, como diz o ditado popular: “quando um não quer, dois não brigam”, a coisa acabou de forma pacífica. Mas o sujeito não iria mais beber no local até que pagasse a dívida.


Pablo, que já vinha se acalmando, retomou a paz e lembrou que no fim de semana haveria a farra do boi. Ele era uma liderança entre os farristas, e seu bar era um ponto de encontro para os homens organizarem esse evento. Nas farras, dezenas ou até centenas de pessoas depositavam no pobre animal todo o seu ódio acumulado. É isso que faz eles gostarem tanto dessa atrocidade. Pablo gostava tanto dessa farra, que ficava feliz só de lembrar que, em poucos dias, haveria o evento.


Enfim, a coisa serenou, e chegou um trio de estudantes da universidade para almoçar. O microempresário voltou para trás do balcão, respirou fundo, ajeitou o casaco e passou a mão na cara como que para expulsar o ódio acumulado. Tinha que atender aqueles “guris de fora” de uma forma minimamente civilizada. “Mas eles que não esperem por muita cordialidade, não”.


Os três universitários moravam no bairro havia um mês. Eram meio hippies, se vestiam de uma forma alternativa. Fumavam maconha escondidos, mas os boatos já começavam a se espalhar pela comunidade. Um deles conquistara o coração de uma garota local, cuja família se revoltava profundamente.


Em 30 dias, os estudantes já tinham feito duas grandes festas na casa de Pablo. Em ambas, compareceram muitas pessoas e rolou muito barulho e bagunça, perturbando a vizinhança. Na última, houve até uma briga devido a um jovem nativo querer entrar entrar de penetra na festa. De fato, o rapaz conseguiu entrar, mas, não demorou muito, começou a incomodar as garotas da festa. Resultado: foi expulso e, na rua, entrou em briga corporal contra um cara “de fora”. O fato é que, em apenas um mês, os três estudantes forasteiros já estavam bem “queimados” no bairro.


Àquela altura, no estabelecimento, havia três clientes bebendo álcool (todos pescadores), a mesa dos universitários e outra onde estava sentado um casal de descendentes de pessoas escravizadas, no caso, negros.


A situação estava relativamente calma, apesar da tensão entre todos os clientes. Os pescadores, bêbados; os universitários, incômodos na região; os negros, vítimas do racismo estrutural.


Ingênuos, os estudantes começaram a papear sobre o Canal da Barra, um canal natural que liga a Lagoa da Conceição ao oceano. Os pescadores e Pablo ouviam atentamente, sem se intrometerem. O casal de negros, astutos, acostumados com uma vida de racismo, pressentiram que o clima no Bar e Restaurante iria esquentar e, consequentemente, sobrar para eles. Sem precisar dizer uma palavra, o casal trocou olhares, abandonou a refeição, levantou-se e saiu, mas não tão rápido para não chamar a atenção..


E a conversa dos estudantes progredia. Um deles estava sob efeito da maconha, o que os pescadores e Pablo logo perceberam. Justamente o que estava chapado começou a discorrer:


  • Pois é, estão querendo construir um molhe de 200 metros na desembocadura marinha do canal, o que vai modificar seu padrão de comportamento. Essa porra vai fuder a natureza toda do canal. Tem que mobilizar a universidade, a imprensa e todos para impedir essa barbaridade!


Certamente, a construção de um molhe afeta a dinâmica da natureza local. Por outro lado, não havia divisão entre o mar e o canal. Por vezes, dependendo da maré, o canal fechava, impedindo o trânsito dos barcos. A ideia era abrir o acesso de embarcações para a lagoa, evitando que os pescadores dependessem das condições do tempo para transitar. 


O tema virou assunto para um debate polêmico entre nativos, ativistas, políticos e a imprensa. O que era consenso é que o projeto tinha um grande potencial de contribuir bastante para o desenvolvimento da região. Facilitaria a vida dos pescadores.


Sendo assim, os nativos, de certa forma, incomodavam-se com esses movimentos contrários ao projeto. Por que esse pessoal de fora estava se metendo, querendo dizer o que se deve ou não fazer no bairro? A incomodação era evidente, mas nada que ocasionasse brigas e violência. Entretanto, aqueles três rapazes estavam muito “queimados”, principalmente pelo fato de morarem e fazerem festas na mesma rua que a casa de Pablo, e esses dois fatores, somados, aumentaram bastante a raiva do pequeno empresário.   


O clima foi esquentando conforme a conversa progredia, e os três pescadores estavam esperando Pablo tomar alguma iniciativa. O dono do bar sabia disso e estava se contendo, pois sabia que um incidente com os estudantes poderia gerar uma grande repercussão. Mas o sangue quente falou mais alto novamente. Pablo, de seu lugar, passou a mão na cara, deu um tapa no balcão de novo, xingou as mães dos estudantes e jogou uma garrafa vazia na direção deles.


A coisa só não acabou em tragédia, porque os estudantes fugiram de imediato, sem interesse em brigar com os nativos. Pablo, em um misto de ódio e medo de uma possível repercussão, arrumou imediatamente as mesas, organizou o bar e limpou o que estava sujo:


  • Hoje o bar fecha agora! Vou acabar matando um se eu continuar aqui nessa porra!


Na casa de Pablo, sua mulher, Cleide, já estava sabendo do incidente. Sabia, também, que iria apanhar. Por isso, fez café, arrumou a mesa, limpou o que tinha que limpar e preparou o terreno para amenizar o que estava para acontecer.


Valéria, a vizinha solitária, também já estava sabendo do incidente. Sabia, também, que a vizinha Cleide iria apanhar.


E o que elas temiam aconteceu. Pablo já entrou batendo a porta e, sua mulher, Cleide, de forma sagaz, ficava de frente pro altar católico da casa, esperançosa de que isso amenizasse a surra. Mas não deu certo. Nem a imagem da Virgem Maria protegeu a mulher. Foi um escândalo, berros, pauladas e até tiros de revólver pro alto. 


Enquanto isso, a cachorra da vizinha latia insistentemente. O espancamento acabou e o cachorro continuava latindo. Fazia tempo que o animal incomodava profundamente Pablo.


Pablo, de revólver na mão, já estava com os braços cansados de tanto dar coronhadas na mulher. Foi por isso que ele parou de espancá-la, devido ao cansaço. Mas puxar o gatilho não exige muito esforço, então resolveu dar um tiro em direção ao cachorro da vizinha, para concluir o escândalo com “chave de ouro”.


Foi um tiro displicente, dado a esmo, sem rigor. Se acertasse, tudo bem, mas provavelmente iria errar. Pablo nem mirou para dar o tiro. O azar do sujeito violento é que ele acertou, e foi em cheio no crânio do pobre animal.


As coisas podiam ser piores, mas a perspectiva de uma farra do boi nos próximos dias amenizava tudo. De fato, foi um dia ruim. Brigou com o bêbado devedor, com os estudantes, bateu na esposa e matou o cachorro da vizinha. Tudo no mesmo dia. Pablo sabia que podia se incomodar com isso tudo, mas, ao mesmo tempo, orgulhava-se disso. Acreditava que estava fazendo o certo.


O que Pablo não sabia é que a vizinha, Valéria, era uma bruxa satânica. Ela fazia rituais dentro de casa, de janelas e portas fechadas. Nenhum morador das vizinhanças imaginava isso. Valéria não conhecia outras bruxas ou feiticeiros, nem tinha livros ou materiais para embasar seus rituais. Simplesmente usava a criatividade em suas magias, que costumavam dar certo.


A vizinha bruxa, revoltada, tinha uma cobra morta em conserva, dentro de um vidro. Havia poucas semanas, ela tinha matado o animal com uma enxada. Foram várias pauladas no crânio do réptil, que tentava se esconder atrás do fogão da casa. 


Logo, a ideia veio naturalmente. Num dia em que Pablo e Cleide não estavam em casa, a bruxa pulou a cerca e procurou algum objeto de Pablo para amaldiçoar. Encontrou um par de sapatos que estavam no jardim da casa.


A ideia foi a seguinte: Ela juntou a cobra e os sapatos e tacou fogo. Enquanto isso, mentalizava a morte do vizinho, pedindo às diversas entidades infernais para concretizarem o ato. Era um pedido fervoroso e sincero. O cadáver do cachorro assassinado, de olhos abertos, contemplava tudo do canto da sala, pois não havia sido enterrado ainda. A bruxa solitária entrava em ação.


E logo chegou o fim de semana. Pablo sorria para tudo. Estava sereno, feliz, cheio de vida. O boi já havia sido escolhido, estava tudo pronto para a farra do boi.


Por vezes, na região, os tormentos da farra do boi iniciavam na Fortaleza da Barra (na beira do canal), percorriam a trilha que levava à Praia da Galheta e, nessa praia mesmo, concluíam a tortura com o assassinato do animal.


A farra havia começado e já estava no meio da trilha. Quarenta homens atormentavam o boi com pauladas, havia tiros de foguete e as mais diversas formas de torturar o animal. Berros de alegria dos homens misturavam-se aos gemidos de dor do boi, que estava em pânico. 


Pablo, com um pedaço de pau na mão, preparava-se para atingir o boi, mas notou que estava numa zona perigosa, pois o boi poderia atacá-lo também. Apavorado, escorregou numa pedra e caiu de uma altura de 2 metros, entre algumas pedras grandes, exatamente onde jararacas se refugiavam. O homem logo sentiu uma mordida no pescoço e tudo se apagou.


Menos de uma hora depois, dezenas de homens, carregando o corpo de Pablo, desciam a trilha em direção à rua, para chamar socorro. Do outro lado caminhava Valéria, a vizinha bruxa, que viu a cena toda. Séria, fingindo estar consternada e preocupada, voltou para casa rápida e discretamente.


Em casa, de janelas e portas fechadas, a bruxa solitária soltou uma risada diabólica, tenebrosa, sem medo de ser feliz. Sem medo de ser descoberta.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Jornada de Sofrimento

Acabei de sair de uma internação em um hospital psiquiátrico, e a primeira coisa que fiz foi reler a minha última crônica, intitulada “Delírio ou Mediunidade?”. Ao fazer isso, o sentimento é de choque e estarrecimento. Consolida-se, assim, a certeza de que uma internação era necessária. Eu mesmo decidi me internar, pois venho de uma jornada de muito sofrimento, parte deste relatada na minha última crônica. Hoje, eu poderia deletá-la do blog, porém penso que ela pode ter algum tipo de valor. Pois bem, sendo assim, achei de suma importância que eu viesse aqui tranquilizá-los. Aquilo passou, e eu acredito que recuperei minha lucidez, posto que recebi a alta do hospital, após 15 dias. Agora, tentarei narrar o que me aconteceu, sem culpar ou prejudicar ninguém. O trem começou a descarrilhar quando fui em dois shows de metal há uns dois meses atrás. Fazia mais ou menos um ano e meio que eu não ia para um “rolê”, e aquilo me marcou profundamente. É difícil ficar sem sair. Enfim, eu gostei e a...

De volta para Deus

Bom, o título deste texto já diz muita coisa. Eu estou tão fodido, que recuperei minha fé em Deus e perdi a vergonha de publicar minhas crônicas autobiográficas. Ao repostá-las, pude relembrar como eu estava no início deste ano e fazer um exame minucioso de minha trajetória. Ora, eu tive um fucking surto psicótico no fim do ano passado, e hoje estou tentando sair de uma recaída com a cocaína. Não posso continuar brincando com minha saúde mental, pois talvez alguma dessas “escorregadas” me tire a sanidade de forma derradeira. Eu estou arrasado. Há anos eu vivia em uma situação que poderia ser nomeada como “internação domiciliar”. Eu não lidava com dinheiro, não pegava o carro, não saía quando queria. Minha família, apesar de algumas recaídas pontuais, levando em conta que eu já participava há 2 anos da irmandade de Narcóticos Anônimos, considerou que talvez fosse o momento de mudar de estratégia. Pois bem, a ideia foi alugar um carro para eu trabalhar como uber. Eu tinha medo de fazer ...

Lembranças e Emoções

Olá, leitor contundente. Estou deveras fudido, não tenho para onde correr. Está cada vez mais claro que eu bebia e usava substâncias para anestesiar as emoções. E, conforme o tempo passa sem as drogas, estou ficando cada vez mais emotivo. É como se uma bomba estivesse para estourar, e eu fosse afogar em lágrimas. Nesses meses de sobriedade, um filme passa na minha mente a toda hora. As coisas estão começando a fazer sentido. Pois bem, andei vendo postagens sobre a banda Linkin Park. Vi notícias de um sujeito que perdeu a memória em um acidente e lembrou das músicas dessa banda em um show, ficando muito emocionado. Eu imagino, essa banda me faz sentir muita nostalgia de fato. E, em um ato curioso, acabei ouvindo bastante esse som nos últimos dias, o que me fez lembrar de uma cena da minha infância. Lá por 2003 ou 2004, quando eu tinha meus 9 ou 10 anos, pedi para minha mãe comprar um CD do Linkin Park, chamado Meteora. Lembro de botar o CD no computador no volume máximo e começar a berr...