Estava lendo aconchegado no sofá da sala em um domingo ordinário. Se eu não me engano, era "O Guarani" de José de Alencar. Esse era o quinto ou sexto livro que eu lia de forma voraz. Eu sabia que era o início de uma nova fase da minha vida.
Destaco isso porque, por um período, eu enfrentei um problema com drogas, e isso eu não tenho problemas em dizer. Por vezes, a verdade se faz necessária. Já havia um tempo considerável que eu estava afastado disso, e foi nesse momento que eu recuperei o que eu chamo de "serenidade para a leitura". Costumo dizer que se estou lendo, é porque estou mentalmente bem, e sou convicto disso.
A satisfação originada por essas leituras foi notável, misturada com a nostalgia de outros antigos momentos, quando era um jovem mentalmente saudável e muito feliz. Para mim estava claro: nada me faria abrir mão da literatura mais uma vez.
Eu desfrutava da marcante conclusão desse livro, que considero a minha favorita, quando, entre minha família, surgiu a ideia de passear. Era mais um de nossos costumeiros passeios de carro, em que saíamos de casa para contemplar o mar, o sol, e apreciar um café em algum lugar. Fechei o livro, peguei meu casaco e fui com eles.
Entre tantas opções que a Ilha de Santa Catarina oferece, escolhemos ir para Sambaqui dessa vez. Lá assistimos um pôr do sol fantástico sentados no banco de uma praça. Porém não fora isso que fez desse um passeio especial para mim.
Enquanto o sol se escondia atrás dos morros que ficam do outro lado da baía, comecei a refletir sobre determinado assunto. Satisfeitos com o entardecer, estávamos entrando no carro para voltar quando percebi que tais reflexões poderiam resultar em uma crônica curiosa. No percurso da volta, enquanto da janela do carro eu apreciava a vista do mar, comecei a pensar em como se iniciaria essa texto, a sua angulação, os seus argumentos.
Foi quando minha ficha caiu: eu estava planejando um texto, coisa que fiz incontáveis vezes em um curso de Jornalismo anos antes. Chegando em casa, corri logo para meu quarto e comecei a escrever tudo que estava previamente arranjado em minha mente.
Após uma rápida hora, 60 minutos que passaram incrivelmente rápido para mim, meu texto estava pronto. Tudo isso foi algo muito inusitado, algo de um ineditismo demasiado. De forma repentina, surgiu-me forte ímpeto de escrever as coisas que passavam em minha mente. É mister destacar que isso não acontecia, nem mesmo quando eu estudava Jornalismo.
Concluído o texto, que era uma crônica, fiquei muito satisfeito e realizado, tanto com o resultado, quanto com a experiência que tive. A verdade é que esse era o que considero o texto mais rico produzido por mim até então. Ademais, não poderia deixar de salientar sobre a sensação prazerosa de poder expressar de forma eficaz as coisas que passam na minha cabeça, cuja natureza considero, digamos, no mínimo inquieta.
O que de fato aconteceu naquele corriqueiro passeio que me suscitou tremenda vontade de escrever e discorrer? Penso que posso indicar alguns fatores importantes: a lírica paisagem de Sambaqui, o conhecimento e a prática adquiridos em um curso de Jornalismo, a considerável carga de leitura recente, e, é claro, a serenidade!
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