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Trilha de ideias

Paulo, entre recortes e realces feitos no Photoshop, sentia seu sangue esquentar. Estava no fim do expediente, que fora deveras caótico, quando viu no fundo do corredor a figura do diretor de arte aparecer. A partir desse momento, seu sangue não só esquentava: fervia.

Ele não conseguia definir a energia nebulosa que pairava naquela agência de publicidade, mas tentava.

- É como uma aura de morte. É o que eu sinto, uma sensação de morte, explicava para sua mulher.

Em todas as manhãs, o trajeto de carro até o seu trabalho era prazeroso. Passava voando. Paulo botava as músicas de que gostava e pensava nas coisas mais aleatórias possíveis. Contudo, todos os dias, aquele estado de espírito era bruscamente interrompido quando o sujeito adentrava a rua da agência. Ali, ele sempre sentia um frio na barriga, uma aceleração no coração e um nó na garganta. A visão da porta da agência era icônica, e evocava nele os sentimentos mais sórdidos.

Qualquer um, se soubesse disso, perguntaria o motivo de ele não sair daquele emprego. Mas o autoconhecimento não era o forte de Paulo, assim como não o é para grande parte das pessoas. Isso é comum. Ademais, era a maior remuneração que ele conseguira em sua vida, e a ideia de voltar a trabalhar como garçom não o confortava. Ele se envergonhava por trabalhar em um restaurante.

Ali, sentindo um forte frio na barriga, Paulo parou e esperou a vinda do diretor de arte. Este, por sua vez, travou uma corriqueira conversa com a faxineira, agravando a espera ansiosa do designer.

Nesse momento, em alguma longínqua dimensão de sua mente, Paulo começara a cogitar que a fonte de tanto desconforto era a insegurança. Sim, o medo de não conseguir corresponder às tarefas de seu ofício. Essa era a primeira vez que ele conseguia codificar um pouco os seus sentimentos, mas sua atenção também estava voltada para a vinda de seu superior. Não havia espaço para maiores reflexões.

Acabada a conversa com a faxineira, o diretor de arte caminhava rapidamente na direção de Paulo. Cada passo do monstruoso homem atingia o ex-garçom, como estouros de frio na barriga. Veio junto a ele e disse, com muito desprezo:

- Cara, a mulher do Lanche Verde não gostou de novo do tom do verde. Ela até aceitou a fonte do slogan mas também não ficou muito satisfeita não. Dá um jeito aí.

Paulo, no desespero de esconder seus sentimentos, respondeu com apenas uma palavra:

- Ok

Afinal, desde quando eles tinham tanta intimidade para seu chefe falar assim? Se é para cometer grosserias, por que não romper o contrato?

O melhor momento do dia a dia de Paulo, obviamente, era nos fins de semana. Sobretudo ao meio-dia dos sábados, quando saía da agência. Era quando ele sentia uma paz indescritível, conquanto, por vezes, interrompida pela lembrança da segunda-feira.

Foi num sábado, depois do almoço, que Paulo encontrou algo que mudaria seu jeito de ser. Ele estava tranquilo no sofá, depois de comer uma saborosa lasanha, a navegar pelas redes sociais. Sua respiração estava mais devagar, seu batimento cardíaco também. O sujeito provava da santa paz dos monges budistas. Isso, com certeza, influenciou na forma como ele reagiu a uma determinada postagem no Facebook.

Foi nesse estado de espírito que ele abriu uma postagem de uma página chamada “Ancap - Viva o Anarcocapitalismo”. Na imagem, um homem de braços abertos olhava para o céu, cercado de algumas árvores de um lindo pomar. A frase, cuja elegante fonte chamara a atenção dos seus olhos de designer, dizia assim: “Livre mercado, livres ESPÍRITOS!”. Já no texto da postagem, os ancapistas condenavam a quantidade de impostos que somos obrigados a pagar, defendiam a liberdade econômica e atacavam o autoritarismo do Estado.

Aquilo tudo pegou Paulo de jeito. Somado a isso, as músicas que ele colocara na TV, o pote de pudim no seu colo, e a brisa que vinha da janela marcavam aquele momento. Ele logo abriu o perfil da página e se pôs a ler aquele discurso. Não percebeu a sua mulher que vinha lhe falar, nem sequer lembrava do design gráfico. À medida que lia aqueles textos, imaginava-se de braços abertos, em um pomar, na santa paz dos monges budistas.

Passaram-se meses, e, naturalmente, Paulo aprofundou seus estudos sobre o Anarcocapitalismo. Nos fóruns deste tema, ele fez amigos e conheceu materiais novos, os quais fortaleciam as suas convicções. O dia a dia em sua agência continuava angustiante, mas parecia afetar um pouco menos o designer. A aura em torno daquele lugar persistia, mas o design parecia espiritualmente mais forte.

É interessante como a ideologia interfere no nosso jeito de ser. Assim como uma eleição interfere em nossa ideologia. As eleições presidenciais chegavam, e Paulo, imerso em suas convicções sobre a liberdade econômica, começava a ver a esquerda como uma grande inimiga. Os comunistas, que pregam a abolição da iniciativa privada e o fim da economia de mercado, aborreciam-no profundamente.

Era nas redes sociais onde tudo acontecia. E era o medo do comunismo que mexia com o coração do designer. Foi um grupo virtual de uma universidade de seu município que direcionou o seu caminho ideológico. Aquilo era como um ringue das ideias, onde numerosas pessoas, entre elas muitos que nem estudavam naquela instituição, diagladiavam. Ali se lhe esclareceu o cenário político brasileiro. Era preciso defender o mercado capitalista, mesmo que isso significasse relativizar certas atrocidades.

Os debates naquele grupo, assim como em muitos outros, eram acalorados e terminavam em ofensas. Mesmo que o partido esquerdista, que estava no poder há mais de duas décadas, não tivesse operado um golpe comunista, Paulo o receava. Nos debates, ele dizia com todas as letras que a esquerda estava gradativamente orquestrando um aparelhamento comunista. “A-PA-RE-LHA-MEN-TO”, dizia ele. Logo ele se viu ao lado da extrema-direita, justificando os atos da ditadura militar brasileira. Ele argumentava que esse era um contexto de guerra, e que os comunistas, em conjuntura semelhante, assassinaram muito mais gente pelo mundo.

Certo dia à noite, Paulo decidiu assistir televisão para arejar um pouco a mente. Estava fatigado após um dia cansativo de trabalho. Porém, o tempo diria que seu objetivo não seria alcançado. No canal que escolhera, um jornalista comentava sobre o anarcocapitalismo:

- Esse é um fenômeno extremamente curioso e deve ser estudado com atenção, afinal, o anarquismo sempre fora alinhado à esquerda. Os primeiros teóricos anarquistas eram movidos pelo sonho da igualdade social. A ideologia anarquista, em suma, ataca quaisquer tipos de autoritarismo. O que leva então anarcocapitalistas a relativizar as atrocidades da ditadura militar brasileira? 

Paulo, com rispidez, desligou a TV de imediato. Não era a primeira vez que se irritava com o jornalismo dos grandes veículos de comunicação. Começava a vê-los como “esquerdopatas”. Respirou fundo e, com as mãos trêmulas, trouxe a xícara de café até a boca. Fitou o teto, ao passo que tudo começava a fazer sentido em sua mente. Havia algum tipo de conspiração, e chegar a essa conclusão acabou serenando seu espírito. Enquanto sorvia o café, ponderava sobre as respostas que daria ao esquerdopata midiático. De fato, Paulo acreditava que a economia de mercado é a mais inclusiva, a mais humanitária, a mais libertária. E caso seja preciso guerrear para defendê-la, Paulo pegará em armas. Com um pequeno, mas muito sincero sorriso, murmurou consigo:

- Tudo no seu tempo, esquerdopata, tudo no seu tempo…

Aquilo virou uma piração. O recém-nascido anarcocapitalista passava horas em sua guerra virtual ideológica, estressando-se, revoltando-se. E isso resultava em ódio. Não era saudável. Ele passou a odiar o discurso esquerdista. Não suportava mais a defesa das minorias, por exemplo, que ele denominava vitimismo. Ele via isso nos jornais, na TV, na internet, nas músicas e nos filmes. E a sua revolta aumentava diariamente.

Em outro dia, Paulo estava em mais um acalorado debate virtual, aparentemente “perdendo” a discussão. O adversário era um acadêmico da Economia, que o entortava através de argumentos concisos e vocabulário rebuscado. As ideias de Paulo sobre Economia eram a fonte de todo o seu recente trajeto ideológico, eram a sua convicção mais cristalizada. Portanto, Paulo estava fora de si, ciente de que muitas pessoas estava assistindo aquilo, entre elas comunistas risonhos. O designer batia no teclado, virava copos de cerveja, respirava de forma ofegante. Estava ensandecido naquele sábado, dia que era para ser de paz.

Foi com esse estado de espírito que Paulo recebeu uma mensagem de sua mulher. Ela dizia que ia sair com o Alex, seu cabeleireiro, um bonito e másculo negro homossexual. Paulo respirou fundo. Aquele sujeito era a típica origem do vitimismo que tanto o aborrecia. Alcoolizado, o designer logo passou a imaginar coisas fantasiosas nos mínimos detalhes. Conseguia ver os dois se beijando, escondidos, rindo dele. Conseguia ouvir a conversa que os levaria até a cama. Seu coração ardia e batia violentamente, suas mãos trêmulas mal conseguiam segurar o copo de cerveja.

Paulo não se conteve. Levantou bruscamente da mesa e correu em direção a seu quarto, onde estavam as chaves do seu carro. Seu coração doía e batia rápido, seu sangue fervia. Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguiu agarrar as chaves. De si para si, com uma voz trôpega, sofrida, difícil de ser emitida, sussurrou:

- Ah, eles vão ver. Porra, eles vão ver!

Naquele ponto, a violência de seus movimentos e gestos já não eram uma opção, ou uma demonstração: era inevitável. Bateu a porta de casa e desceu as escadas do prédio com muita dificuldade, pois suas pernas tremiam.

Correu de carro, por pouco sem se acidentar, até o bar onde estavam sua esposa e cabeleireiro. Lá, em frente a todos, gritou com agonia:

- Vocês tão tirando com a minha cara, caralho?! Seus filha da puta!!!

Em seguida, Paulo avançou na dupla de amigos. Sua mulher, que o tentava afastar desesperadamente, foi a primeira a ser agredida, com um soco no rosto. Com ela fora de seu caminho, Paulo pegou uma garrafa de uma mesa e atacou o rapaz. 

Assim acabou o seu casamento, e, quem sabe, as suas convicções políticas.

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