O algoritmo do Instagram me deixa intrigado. Será mesmo que aquelas coisas que ele me sugere refletem os meus interesses? Digo, é na opção “buscar” que eu me assusto. Mas, volta e meia, o algoritmo também me traz coisas interessantíssimas. Agora há pouco, apareceu na minha “lupinha” uma foto de uma senhora de idade exibindo uma tatuagem no peito, escrito “Fuck The Police”. Uau! Digamos, bem subversivo.
É claro que eu abri o perfil que postou essa imagem. Algo me dizia que tinha a ver com o movimento punk, e a minha intuição estava certa. Era uma página americana dedicada ao punk “old school”. Traduzindo, seria um perfil que exalta o punk tradicional e as bandas clássicas do gênero.
E eu fui rolando a tela abaixo, visualizando todas as postagens que apareciam, em sua maioria “memes”. Muitos zombavam das bandas atuais, taxadas de “posers”. Outros atacavam Donald Trump e o palhaço do Mc Donald’s. Alguns exaltavam o álcool e abordavam o uso da maconha (coisa que eu já não aprovo mais).
Quando me dei conta, estava há minutos sonhando acordado, divagando. Passou um filme na minha cabeça. Não, nunca fui um punk, mas, por um bom período da minha adolescência, eu me identifiquei com esse… “movimento”. Eu comecei escutando Ramones, depois passei para o Sex Pistols, logo estava ouvindo coisas mais pesadas, como Black Flag, Bad Brains, Dead Kennedys, Discharge, The Exploited e por aí vai.
Tem as brasileiras também. Na época, lá pelos anos 2009 e 2010, quando eu tinha 15 ou 16 anos, havia uma loja meio punk em Florianópolis. Os caras não eram muito simpáticos comigo, talvez por eu ser muito novo, sei lá. Mas eu gostava do que eles vendiam. Lá comprei revistas em quadrinhos subversivos, um tênis que machucava meu calcanhar e alguns CD’s. Um desses foi o clássico “Crucificados Pelo Sistema”, do Ratos de Porão. Esse álbum é espetacular! Por um bom tempo, diariamente, eu ouvi esse álbum logo depois de acordar de manhã cedo, para me animar e me tirar da sonolência.
Por um lado, o punk é muito bacana, pois é muito politizado e faz um trabalho de conscientização interessante. Eles tremulam a bandeira da liberdade e denunciam a opressão. Já, por um outro lado, o punk pode gerar um certo mal entendimento ou má influência quando o assunto é álcool e outras drogas. Foi o meu caso. Naquela época, eu começava a beber, ou, em outras palavras, tomar meus primeiros porres.
Hoje, 15 anos depois, aos meus 30 anos, estou mais do que lúcido para entender que isso tudo é uma ilusão. Mas eu não sou julgador. No final da década de 70 e nos anos 80, quando o punk explodiu, havia muito menos informação sobre drogas e adicção.
E, com uma influência forte do punk, eu prosseguia o meu ensino médio em uma escola de elite da cidade. Percebe a contradição? Definitivamente, eu não era um sujeito periférico, não era um punk de rua. Eu sabia disso, portanto não procurava ser associado ao movimento. Mas eu continuava ouvindo essas bandas.
Agora há pouco, quanto mais eu explorei o perfil punk do instagram, mais reflexões e divagações sobre minha vida surgiam.
Lembro quando passei no vestibular em 2012 e esperava encontrar muita gente rockeira na universidade. Achava que iria me deparar com diversos punks e metaleiros no ambiente. Ledo engano. Ao meu ver, o pessoal do samba e da mpb predominava. E eu, naturalmente, queria me enturmar.
Lembro certinho das vezes que eu fumei maconha no bosque da UFSC e fiquei rindo durante longos minutos, até a barriga doer. Ali a coisa começava a desandar. O fato é que eu me apaixonei pela erva e, cada vez mais, fui me perdendo de mim mesmo.
Lembro de uma banda que marcou uma transição na minha vida naquela época. Foi o Bad Brains. É uma banda americana de negros rastafaris. Sim, eles tocavam um hardcore pesado e louco, mas alternavam com o reggae. Ali eu comecei a ouvir reggae.
E eu fui me aprofundando no reggae, cada vez mais viciado. Logo tinha esquecido do punk, do hardcore e de muitas outras coisas que não vêm ao caso nesse texto. Acho que aquelas risadas no bosque me marcaram de verdade. O problema é que elas deixaram de acontecer, e a paranoia começou a tomar conta. Em outras palavras, a maconha passaria a me fazer muito mal.
Eu continuei a explorar aquele perfil do instagram e outra lembrança veio à minha mente.
Lembro que estava sentado numa mesinha de xadrez em frente ao Centro Acadêmico do Jornalismo da UFSC. De repente, passou uma colega do curso, andando rapidamente e com uma cara de assustada. “Tem algo errado”, pensei. Logo em seguida, de onde ela tinha vindo, apareceu um punk. Um street punk de verdade. Todo uniformizado, com os coturnos, as roupas de couro com espinhos de metal, as tatuagens no corpo e na cara, os incontáveis piercings.
Ele veio acompanhado de seu cachorro que, de forma coerente, estava sem coleiras. Acho que ele sentiu que eu não me assustei, ou que até simpatizei com a figura caricatural dele. Sendo assim, ele decidiu sentar na mesa em que eu estava. Eu não lembro das exatas palavras que a gente trocou. Recordo-me da minha colega assustada, que parecia indignada por eu dar atenção ao cara e dar oportunidade para ele ficar mais tempo.
De fato, o cara era assustador. Ele tinha um olhar vago, mas não sei se estava chapado (de maconha, pelo menos). Ele não estava acelerado. Talvez um pouco alcoolizado. Eu olhava para ele em minha frente e parecia que sua mente estava zumbindo, como se eu conseguisse ouvir a mente barulhenta do sujeito.
Ele nem imaginava que eu tinha um certo conhecimento sobre os punks, sobre o movimento. E eu olhava para ele como quando olhamos para um palhaço, no sentido legal da palavra. Eu tentei demonstrar que eu conhecia as bandas, o movimento ou algo do tipo, mas ele realmente estava nem aí para isso.
Aí ele puxou o anarco-cachorro para seu colo, depois retirou um pote de comida de sua mochila e o colocou na mesa. Naturalmente, o cachorro olhou para o pote, aproximou seu focinho e foi lambendo a comida. Em seguida deu umas mordidas, deliciando-se. E depois, sim, o punk pegou um talher e comeu da mesma comida, sem demonstrar nenhum nojo.
Cara, aquilo foi muito punk! Eu não sou nenhum especialista, mas aquilo foi muito punk! Eu nunca esquecerei dessa cena. É como se eu tivesse uma máquina do tempo, viajado para 1977, quando o punk explodiu em Londres, e interagido com os caras. Fantástico. E ah, pouco depois, o cara foi embora sem muita cerimônia.
Hoje em dia eu escuto pouco punk/hardcore. Tenho gostado mais de heavy metal mesmo. O reggae eu abandonei desde que parei de fumar maconha. Mas, caramba! O punk me influenciou muito, e eu só estou constatando isso depois de escrever esse texto. É incrível o valor terapêutico da escrita, pois com ela podemos amadurecer muito nossa visão sobre nós mesmos e o mundo ao redor.
Para concluir, eu iria relatar um outro episódio que tive com um grupo de punks “de verdade”, em que, penso eu, quase apanhei. Mas algo me diz que devo parar por aqui, e vou seguir minha intuição…
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