As pessoas que convivem comigo e as que me acompanham na internet devem ter percebido uma certa mudança em mim. Nas últimas semanas, tirei meu escapulário do pescoço, abandonei as missas e as confissões e venho compartilhando coisas de outro viés na internet. Trata-se de mais uma reviravolta completa em minha vida, e não é a primeira vez que isso acontece.
Ao revisar de forma breve meu Tumblr (blog), senti necessidade de escrever isso. Eu vivia um fervor religioso, e isso se refletiu nos textos que escrevi. Um deles, publicado em maio do ano passado (2024), intitulei “Volta ao Monoteísmo”. E o que eu queria dizer com esse título? Foi o relato de outra reviravolta, mas no sentido contrário à de hoje
Isso é muito angustiante, é como se eu tivesse duas versões opostas vivendo dentro de mim. Essa dualidade começou há 7 ou 8 anos, quando eu sofria para concluir minha faculdade de Jornalismo. Foi um período de muita paranoia e loucura, em que eu precisava pedir ajuda a alguma entidade para me dar uma luz. Na época, eu me identificava muito com o Rastafarianismo, que tem suas origens na Igreja Ortodoxa Etíope. E desse ponto até o Catolicismo foi muito rápido e simples, era uma questão de largar o péssimo hábito de fumar maconha.
Desde então, vivo em duas versões. Vou alternando conforme o tempo passa. Por isso, eu me sentia solitário com essa questão, mas logo descobri que isso é muito comum entre os cristãos. Por vezes, a fé da pessoa “esfria”, e ela se afasta da igreja. O problema comigo é que a coisa é muito extrema e radical, é “8 ou 80”, como dizem por aí.
Já refleti muito sobre isso tudo, e creio que cheguei a algumas respostas. Trata-se de um processo de autoconhecimento. A fonte do meu problema é precisamente a minha interpretação do evangelho. Meu entendimento da mensagem de Jesus é muito rígida e radical, próprio das alas mais extremas da Igreja Católica. Eu começava a trilhar um caminho de fanatismo.
Logo eu comecei a me revoltar com o mundo em minha volta. A vida perdeu a cor. Deixei de fazer coisas de que eu gosto por entender que eram pecados. Perdi o senso de humor, pois via maldade em toda piada. Não podia vislumbrar a beleza de uma mulher que já sentia forte culpa. Eu desprezava qualquer forma de prazer, e ficava com raiva de quem não pensava assim. É claro, eu sofria para fazer as penitências e renúncias e, quando via os outros ignorando isso e sendo felizes, eu sentia ódio.
Sob essa ótica, não podemos negar que, durante os últimos séculos, o cristianismo perdeu muita força no mundo ocidental, e isso se tornou fonte de muita revolta.
Pessoas da minha vida tentam mudar essa minha interpretação do evangelho, e eu não me incomodo com isso, mas, até agora, foi tudo em vão.
Seguindo nesse raciocínio, a solução pode parecer óbvia: devo largar a religião. Mas a coisa não é tão simples. No passado, eu me considerava um anti-cristão, e isso me levou a autodestruição. Por isso, dessa vez, estou tentando evitar extremismos. Hoje acredito que não preciso odiar Jesus nem optar pelo total oposto do que ele pregou, mas também não preciso ser um seguidor seu.
Em meio a esse contexto, há o meu deslumbramento pelas culturas politeístas. Vivo imaginando como seria se o mundo fosse assim. Será que seria melhor? Mais pacífico? Ou não? Quais são as implicações de uma cultura acreditar em um único ser supremo e criador da vida e de todas as coisas? De fato, noto semelhanças entre cristianismo, judaísmo e islamismo.
Sendo sincero, o politeísmo me agrada. Eu consigo imaginar a vida surgindo do nada, a partir de uma reação química, ou um milagre. Penso que os deuses não são exatamente como as culturas dizem, mas algumas coisas fazem sentido, como o reino dos mares, o reino dos sonhos, o reino de cada sentimento.
Seguindo nessa linha, o possível deus das plantas deve me odiar, tendo em vista a forma como a maconha me destruiu…
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