A crônica é um gênero textual que costuma abordar fatos corriqueiros do nosso dia a dia. E que homérica tragédia é escrever esse tipo de texto com o tema da pandemia do coronavírus! Sim, pois ela está afetando o nosso cotidiano, e coisas antes atípicas em nossa realidade, tornam-se eminentemente comuns de uma hora pra outra.
Atire a primeira pedra quem nunca se aborreceu por sair e esquecer a máscara em casa. Quem jamais se irritou por lidar com indivíduos nada precavidos, ou o contrário (afinal, quem seria eu para controlar quem lê minhas coisas?). Quem não refletiu sobre como o seu organismo reagiria a um possível contágio?
Divague comigo sobre como a realidade mudou. Poderíamos refletir sobre inúmeros aspectos disso tudo. Eu, em minha posição de escritor de crônicas, sinto-me no dever de escolher um enquadramento curioso e novo, abordando coisas desse novo contexto. Afinal, enquanto nessa condição, almejo não fazê-los perder tempo com reflexões comuns e apontamentos conhecidos.
Certo dia eu estava na rua e precisava matar um tempo. Acendi um cigarro e passei a filosofar sobre qualquer banalidade. Não sou de ler os grandes filósofos, porém gosto de divagar, com aquela feição asna e olhar no horizonte. Coçar o queixo também faz parte do pacote. No centro da cidade, cedo ou tarde (provavelmente cedo) essa contemplação seria interrompida. Estou falando dos mendigos, é claro. Grandes personagens para bons cronistas! Logo um desses sujeitos caricaturais me abordaria por um cigarro.
Porventura me irritaria com a interrupção, mas não foi o caso. Desmascarado, o sujeito aparentava simpático. Todavia, despreocupado com a pandemia, ignorando precauções. Conforme ele se aproximava, eu, precavido, me afastava. Um cigarro entregue e algumas respostas rápidas foram o máximo de correspondência que eu pude ceder-lhe. A minha ideia era manter a distância.
O indivíduo, como que em resposta instantânea, não escondeu um certo chateamento e queixou-se sobre a arrogância das pessoas com sua classe, a dos moradores de rua. Eu tinha entendido: ele pensava que eu era daqueles ojerizados com ele. E, remontando a cena em minha mente, compreendi que a falsa interpretação, de certo modo, fazia sentido. De forma desproposital, eu rechaçava insensivelmente o rapaz.
Tal incidente me causou reflexões sobre como a divergência de conceitos sobre algo, que no caso era o Corona vírus, pode causar mal-entendidos. E, em tempos de pandemia, recomendo-lhes: cuidado com os mal-entendidos!
Chamo atenção para isso pois, nesses tempos, novos acontecimentos corriqueiros suscitam tal reflexão. Cada um carrega uma visão sobre o problema, e as ideias divergentes estão gerando novos conflitos em nosso cotidiano. Em meio a esse quadro, cabe-nos prezar pela saúde mental e ter jogo de cintura para lidar com tais situações.
Muitos são os que persistem em uma quarentena firme, porém também são numerosos os que estão começando a sair para as aglomerações. O país, completamente polarizado na política, passa a enfrentar uma nova divisão. Sim, leitor contundente, uso o verbo "enfrentar" pois não há como tal divisão ser positiva para o dia a dia de um país. Trata-se de um problema. Melhor seria se combatêssemos o Corona em unidade.
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