Nunca falou do samba nem o samba falou dele, na verdade, ele é o samba
O visual era do mais puro abatimento e consternação. Reizinho, conformado, acabara de receber a notícia de que não havia vaga para a tão desejada bolsa de estudos. Sentado em um banquinho próximo à lanchonete da universidade, não conseguia esconder seus sentimentos em meio às pessoas que passavam pelo movimentado local. O que lhe restara era planejar-se sobre o que fazer da vida. Continuar estudando, procurar novos lugares para tocar violão, vender discos e encontrar empregos alternativos eram algumas das opções que rondavam sua mente.
O vento brando de uma manhã de outono e boas tragadas de cigarro serviam de consolo para o sujeito que transbordava exaustão no banquinho da lanchonete. Ainda que seja um gênio das cordas, ele passava despercebido em meio à multidão. Raciocinava, refletia, encarava o céu enquanto a brisa carregava a fumaça que saía direto de seus pulmões. As mãos eram gordas e as unhas quebradiças estavam dominadas por uma pereba que causava bolhas roxas feíssimas. Quando indagado sobre sua saúde a teimosia logo aparece:
– Fui no médico e tá tudo certo comigo. Meu pulmão mesmo tá limpinho, igual de criança, e olha que eu fumo há mais de 40 anos.
Essa é a situação em que vive Osmar Cunha da Silva, um dos mais respeitados músicos de MPB e samba de raiz em Florianópolis. Recebe em torno de R$ 300 por domingo na casa Rancho do Neco, o único local que tem trabalho fixo. Com dificuldades para pagar seu aluguel, o violonista teve que procurar por novas alternativas para se sustentar. O curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina pareceu-lhe uma boa opção pela possibilidade de conseguir uma bolsa de estudos e a alimentação acessível que a instituição oferece.
Orlando Carlos da Silveira Mello, o dono do Rancho do Neco, acredita que o potencial artístico da ilha poderia ser muito mais aproveitado. Neste ano, teve que cessar suas festas em seu novo bar Qualé Mané, no centro da cidade. Aos sábados acontecia churrasco e música ao vivo com artistas conhecidos da cidade como o Reizinho; Deto, o autor do hino do Figueirense, Daniel Lucena ex-vocalista da banda de rock rural Expresso, entre outros. Até que em um desses eventos, numa sexta-feira à tarde, a guarda municipal e um fiscal da prefeitura vieram ao local e puseram um fim na atividade devido ao uso do espaço público com cadeiras e mesas sem autorização. Neco, que é formado em música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e militou pela arte nas décadas de 70 e 80, acabou frustrando-se:
– Ainda que eu realmente esteja utilizando o espaço público, acredito que o ideal seria a prefeitura trabalhar lado a lado comigo para ocuparmos culturalmente as áreas públicas incentivando a arte e contribuindo para o turismo da cidade.
Outro impasse que Neco aponta é a estrutura física de boa parte dos estabelecimentos, além da lei do silêncio imposta pelo novo plano diretor:
– A maioria das salas comerciais do centro não estão preparadas para receber som alto e nem foram construídas para isso. A lei do silêncio do novo plano diretor também dificulta as atividades culturais que Florianópolis poderia oferecer, impedindo a realização de muitos shows e apresentações.
O órgão público responsável pela questão do barulho na cidade é a Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), que emite certidões de tratamento acústico adequado, atende às denúncias, autoriza eventos e analisa laudos de ruído. O tema é polêmico, pois ao passo que esse tipo de fiscalização preza pelo conforto de moradores, ela empata muitas atividades culturais que poderiam contribuir para o processo de humanização dos espaços públicos.
Ainda que o samba de raiz, suas casas e músicos muitas vezes não sejam devidamente valorizados em Florianópolis, ele tem público e vem crescendo nos últimos tempos. Um dos precursores dessa cena é o Bar do Tião, no bairro Monte Verde, fundado em 1991. A criação do estabelecimento foi ideia de Dona Ivonete, que queria segurar o seu marido João Batista de Almeida em casa. O bar acabou formando e incentivando muitos músicos a seguirem nesse ritmo musical.
Desde então o número de casas que apresentam Samba de Raiz vem crescendo. Em 2004 foi criada a DeRaiz na praia da Joaquina. Perto dali, na Lagoa da Conceição, a Casa de Noca foi fundada em 2011 e também oferece esse tipo de música. Mais recentemente a Casa do SambaAqui iniciou suas atividades em 2012. Mesmo sem um apoio da prefeitura e governo, o mercado de Samba vem evoluindo muito. Murilo Osório, ex-funcionário do DeRaiz, onde cuidava dos aparelhos de som ressalta:
– É um público extremamente fiel. Em uma época que as músicas eletrônicas e digitalizadas vêm predominando nas festas das novas gerações, é muito gratificante ver tantas pessoas prestigiando as raízes da música brasileira. O Samba de Raiz hoje para mim é um símbolo de resistência.
Aos 60 anos, Reizinho é parte dessa onda. Com muito esforço físico levantava do banquinho e caminhava lentamente para o ponto de ônibus. Trazia nas costas uma mochila socada de roupas sujas e apostilas amassadas da faculdade. Exalando cheiro de cigarro, pediu algumas moedas para um estudante e foi-se embora. Nunca falou do samba nem o samba falou dele, na verdade, ele é o samba.
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