A moça de meia idade resmungava com abatimento suas crises de tontura. Reclamava também de dor de cabeça e mal-estar. O pastor, concentrado, colocou a mão na cabeça da fiel e gritou:
– Sai!!! Sai deste corpo!
Era uma manhã comum de quinta-feira no templo da Igreja Universal do Reino de Deus, situada no centro de Florianópolis. O local estava tranquilo e praticamente vazio, ainda que a instituição possua um grande número de devotos. Segundo o IBGE, existem 6 mil templos, 12 mil pastores e 1,8 milhões de adeptos da Universal em todo o território nacional.
Ao entrar neste grandioso monumento de arquitetura chamativa, logo fui abordado por um dos seguranças. Esclarecidas as intenções, fui levado até um banquinho onde esperaria o pastor finalizar um culto, o qual contava com 15 a 20 pessoas. Próximo dali, um faxineiro muito educado limpava o chão e aceitou conversar alguns minutos.
De fato, as igrejas evangélicas são alvo de muita polêmica. Elas são livres de impostos e os fiéis, em sua grande maioria, pagam o dízimo (10% do salário que recebem) e isso movimenta muito dinheiro nos caixas. O próprio fundador da Igreja Universal, Edir Macedo, já foi preso em 1992 acusado pelo Ministério Público de charlatanismo, estelionato e curandeirismo. Entretanto, foi solto 11 dias depois por falta de provas.
Além disso, o aumento da participação dos evangélicos na política também chama atenção. Atualmente a bancada evangélica em Brasília conta com 78 parlamentares, 75 deles deputados e três senadores. Um destes é Eduardo Cunha, do PMDB, que hoje é o presidente da Câmara dos Deputados. Algumas das reivindicações desta frente é a proibição do direito ao aborto e à eutanásia, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do uso de drogas.
Visto a quantidade de dinheiro que estas correntes religiosas podem movimentar e também o poder que estão representando na política, é evidente que existam polêmicas. Ao passo que essa bancada cresce, o perfil do Congresso Nacional tornou-se o mais conservador desde 1964, conforme análise do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
Fora de foco dos olhares das frentes políticas opostas, essas igrejas seguem realizando diversos projetos sociais. O site da Universal, por exemplo, aponta alguns deles, como: apoio a presos e familiares; visita a hospitais; cursos de alfabetização e profissionalizantes; apoio a equipes de resgate em ocorrências; ações sociais nas comunidades; auxílio na recuperação de dependentes químicos; apoio a vítimas de violência doméstica; atenção a crianças órfãs; apoio aos moradores de rua e trabalho voluntário com universitários.
Ao meu lado, Marcos Pereira*, de 21 anos, o mais novo faxineiro da Igreja Universal, contava um pouco da sua história. Há cinco meses ganhava a vida traficando drogas em uma boca de fumo do Morro da Caixa, próximo dali. A casa de sua família ficava exatamente ao lado do ponto de droga e assim ele, aos 15 anos, e seus outros três irmãos, aos 12 anos, começaram a consumir drogas e adentraram a vida do crime.
Marcos falava sempre de uma maneira aliviada, agradecida por ter superado o ritmo de vida anterior. Perdeu um dos seus irmãos nela. Seus olhos, aos poucos, encheram-se de lágrimas, mas sem correr pelo rosto. Sua “boca” rendia R$ 60 mil por mês, dos quais R$ 25 mil ficavam com um chefe e o restante era dividido entre os quatro irmãos. Hoje ele recebe R$ 1mil como faxineiro.
Até conhecer a religião já havia feito três assaltos. Em um deles, seu comparsa o denunciou e então Marcos ficou três anos e 10 meses em regime semiaberto. Explicou que não se arrepende de pagar o dízimo e tem certeza de que o retorno compensa. Durante a conversa toda sempre deixou claro que Deus era a sua única saída:
– Foi um dia normal, estava sentado no meu lugar de sempre na boca. Foi quando um rapaz me entregou um jornal da Igreja Universal. Foi a partir dali que Deus tomou conta da minha vida e eu perdi o espírito do vício.
Finalizado o culto que acontecia, fui levado até o pastor, com quem perguntei aonde encontraria mais casos parecidos com o de Marcos. Não imaginaria que seria tão rápido conhecer outra história surpreendente. O próprio pastor Willians, que me recebeu, era outro caso similar. Havia sido preso seis vezes no passado. Viciado em maconha desde os dez anos, e crack desde os 16, já trabalhou para uma boca de fumo e também realizou alguns assaltos. Conheceu a religião em um destes períodos na cadeia, quando foi presenteado com alguns livros da Igreja.
– Acreditamos que o vício é um espírito maligno. E a partir do momento que comecei a ler aqueles livros, aquele espírito saiu da minha vida.
Qualquer corrente política terá alguma rival, será alvo de críticas. E o dinheiro arrecadado por estas instituições de seus fiéis sempre foi o grande motivo de ataque de muitos setores da sociedade. Historicamente existem diversos acontecimentos em escala internacional que simbolizam isso. Em 1992, a Universal foi excluída da Aliança Evangélica Portuguesa. Desde 1995, a Federação de Entidades Religiosas Evangélicas da Espanha (Ferede) não a reconhece igreja como evangélica. Em 1997, a Câmara dos Representantes da Bélgica a descreveu como uma “associação criminosa, cujo único objetivo é o enriquecimento… uma forma extrema de mercantilismo da fé”.
Em janeiro de 2013, a revista estadunidense Forbes publicou uma reportagem intitulada “The richest pastors in Brazil” sobre a riqueza dos pastores brasileiros. O primeiro da lista elaborada foi justamente o fundador da Universal, Edir Macedo, possuindo uma fortuna de R$ 2 bilhões. O segundo colocado, o pastor Valdemiro Santiago, é um dissidente desta igreja, que por desentendimentos resolveu criar uma nova, a Igreja Mundial do Poder de Deus. Sua riqueza foi avaliada em R$ 400 milhões. Em terceiro ficou Silas Malafaia, da Assembléia de Deus Vitória em Cristo, com R$ 300 milhões.
Como visto, existem outras igrejas muito fortes atuando. A Igreja Mundial do Poder de Deus, organização evangélica neopentecostal fundada em 1998, possui um milhão de fiéis e quatro mil templos espalhados pelo Brasil. A Assembléia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, construiu em 2014 um mega templo com capacidade para 6 mil pessoas pelo valor de R$ 30 milhões.
O pastor Romero, de 31 anos, aparentava muito ocupado naquela tarde nublada de quarta-feira. Recomendava um livro para um fiel adolescente, atendia frequentes telefonemas de outros pastores para resolver diversos tipos de tarefas e concedia entrevista para um estudante de Jornalismo atucanado. Apesar disso, foi muito receptivo e aberto à conversa:
– As pessoas costumam julgar mal o que não conhecem. Se tivermos que entrar no inferno para ajudar um devoto, nós entramos.
Perguntado sobre os principais motivos pelos quais as pessoas procuram sua instituição, Romero citou alguns. Depressão, doenças, divórcios, miséria, entre outros. Explicou que apesar de antigamente a maior parte dos devotos era pobre, hoje pessoas de outras classes sociais também estão procurando ajuda:
– Temos vários casos de mulheres ricas, dirigindo carros caros e morando em apartamentos luxuosos, mas não têm um marido fiel, que a ame. Procuram então a nossa Igreja.
Romero citou também uma campanha realizada ali chamada “A cura dos vícios” para dependentes químicos. Viciados e ex-viciados encontram-se no templo todos os domingos para trocar experiências e formular maneiras eficazes de combater a dependência química. O pastor afirma ainda que sua instituição consegue recuperar uma pessoa das drogas com mais eficácia que as próprias clínicas de recuperação.
– As clínicas acreditam no problema biológico, do corpo do drogado apenas. Não entendem que o problema é também espiritual.
Convicto, usou seu próprio exemplo. Disse que também usava drogas, como o ecstasy e o álcool. Entretanto, começou a frequentar a igreja há cinco anos e entrou em contato com novos valores. Havia então se afastado das drogas e adotado um novo estilo de vida. Depois de alguns meses foi convidado a ser obreiro, um auxiliar do pastor, que já é um tipo de autoridade espiritual e eclesiástica. Por fim, dois anos e meio atrás, conquistou a confiança de seus superiores, chegou ao posto de pastor.
– Para ser pastor deve-se ter o espírito santo e também saber orientar as pessoas.
As igrejas evangélicas vêm do Protestantismo. Este é um ramo do Cristianismo, surgido no século 16 em reação às práticas do catolicismo medieval. Na época, grandes intelectuais da teologia e do humanismo como Calvino, Lutero e Zuínglio reinterpretaram a Bíblia e descobriram uma nova visão de fé e doutrina bíblica. Eles conservaram as crenças cristãs ortodoxas, mas rejeitaram doutrinas como o purgatório, a supremacia papal, as orações pelos mortos, a intercessão dos santos, a Assunção de Maria e virgindade perpétua, a veneração dos santos, o sacrifício da missa e o culto às imagens.
Com a evolução da tipografia e dos equipamentos gráficos, as formas básicas do protestantismo como a Luterana, Presbiteriana e Anglicana começaram a se espalhar pelo continente europeu e pelo mundo. Atualmente há quase 970 milhões de protestantes no mundo, entre os 2,6 bilhões cristãos. Os Estados Unidos são o país que reúne o maior número de protestantes, com 162 milhões de pessoas. Já no Brasil este número é de 42 milhões.
Marcos, o faxineiro, focado em demonstrar como a igreja o ajudou, retirou seu celular do bolso. Mostrou fotos antigas, vestido de roupas caras, cheio de joias, óculos escuros chamativos, consumindo bebidas alcoólicas e segurando cigarros de maconha. Exibiu também sua tatuagem do Bob Marley como uma das coisas da vida que levava. Ao seu lado, Pastor Willians de cabelo cortado, barba feita, vestindo terno e aspecto calmo, não aparentava ter sido outrora um usuário de crack.
Ali conheci uma nova perspectiva das igrejas evangélicas. Apesar do abismo entre os meus valores e os dos adeptos à Igreja Universal do Reino de Deus que conheci, todos os fiéis com quem conversei foram extremamente simpáticos e prestativos. Pessoas que procuram caminhos para ter uma vida melhor, longe da violência, do crime e das drogas.
(*) Nome fictício para preservar, a seu pedido, o direito de privacidade do entrevistado.
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