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Proezas do Ribeirão da Ilha

Hoje está um dia um pouco quente. O sol, que de vez em quando resplandece por entre as nuvens de um céu nublado, esquenta-nos, mas sem queimar. O leve vento noroeste harmoniza com a os raios da majestosa bola de fogo, fazendo deste o habitat ideal para a humanidade e outros seres.

Eu estou no Ribeirão da Ilha, tomando um café, após saborear uma moqueca de frutos do mar. A vista da baía, cujo horizonte é coberto pelos morros do continente, é o tipo de coisa que gera muitas obras por meio dos artistas. A arquitetura local, característica dos antigos imigrantes açorianos, intensifica a experiência, ao levar-nos a outros tempos e retemperar-nos a alma.

Tal condição transcendental pode ser amplificada através de uma boa carga de leitura. E eis aí meu conselho a ti, caro leitor contundente.

Cedo ou tarde, eu iria começar a divagar e mentalmente a viajar para longínquos campos das ideias. Entre esses pensamentos, ultimamente, escolho os mais dignos para compartilhar em crônicas, esse magnífico gênero textual.


Agora estou passando pela Igreja Nossa Senhora da Lapa, construída em 1763. Com meu celular, esse tremendo artifício que nos veio transformar as vidas, vou registrando minha experiência transcendental.


Como seria o dia a dia daquele bucólico local durante o século 18? Logo me pus a imaginar um dia de sol e nuvens, como esse em que escrevo, com grande agitação pela praça que antecede a igreja. Era uma festa paroquial, com crianças correndo para todos os lados, pescadores aproveitando um tempo de ócio, carroças, cavalos, freiras, padres, militares, escravos, nobres… Em um canto, falava-se sobre os resultados das pescas; em outro, comentava-se sobre a performance do padre, as novidades do Rio de Janeiro, a urgência de uma alfândega no centro da cidade. Senhoras, senhoritas e moçoilas fofocavam sobre as intrigas amorosas da vila e conspiravam contra as mulheres suspeitas de praticar bruxaria. Tudo acontecia em câmera lenta, tal qual supõe o meu lado menos cientificista.


Em certo ponto, refleti que nesse contexto viveram grandes escritores de nossa literatura brasileira. Nessa realidade viveram José de Alencar, Machado de Assis e Aluísio Azevedo. Em meio a esse panorama, a essa energia, eles percebiam o que ninguém mais percebe. Decodificavam sentimentos como mais ninguém decodifica. Talvez sentiam o que mais ninguém sente. E passavam para o papel.


Até que imaginei, olhando para um canto da praça, sob uma árvore que não sei identificar, um homem negro bem vestido: não era um escravo. Ele ignorava comentários hostis de uma senhora, esforçando-se em focar naquela árvore. Esse homem era Cruz e Souza, jornalista e escritor, um dos precursores do Simbolismo no Brasil.


Eu o imaginava contemplando uma árvore porque isso foi o que me marcou no único livro que tenho dele, chamado Evocações. Com que maestria ele descrevia as plantas e as árvores! Parecia dar-lhes vida. As formas das folhas, as flores, o caule, as cores, tudo parecia atingir em cheio a alma do escritor, e ele compartilhava isso nos papéis. Esse olhar também podemos identificar nas obras dos outros escritores dessa geração. É marcante. Noto também esse olhar por parte de nossos idosos, em comparação ao ponto de vista de nossa juventude.


Minha intenção não é colocar uma geração como superior a outra, afinal, isso seria um equívoco absurdo. Somos humanos. Mas não deixo de questionar sobre o que mudou para esse olhar estar menos presente na atualidade. Poderíamos apontar para a intensa urbanização, mas eu creio que a questão é muito mais complexa. O evidente é que isso é uma pena, posto a beleza de tal olhar. Ele evoca os sentimentos mais puros.


E, já em casa, folheando a obra de Cruz e Souza, concluo minhas considerações de hoje. Mas sem antes deixar de contar-lhes que estou começando a pensar em fazer um curso de jardinagem!

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