Acabo de vivenciar uma experiência especial com meu hábito de ler quadrinhos, a nona arte. Voltei a ler HQs há alguns meses, depois de um período de três ou quatro anos lendo pouco, por motivos diversos. Esse retorno aconteceu principalmente como consequência de meus estudos da língua inglesa. Eu conhecia os potenciais educacionais dos gibis pois lembro de como meu Português evoluiu depois que comecei a lê-los. Tendo isso em mente, passei a ler com grande frequência os quadrinhos em inglês.
Sendo assim, durante os últimos meses li bastante o gênero de super-heróis, pois são os mais fáceis de encontrar em inglês pelas bancas, sebos e livrarias. Isso pode ter até surpreendido alguns conhecidos meus que entendem de quadrinhos, pois na verdade eu lia quase que só HQs italianas, principalmente da Editora Sérgio Bonelli. O fascínio era tanto que aos meus 13 anos, em 2007 ou 2008, fui apelidado de “Menino Bonelli” por amigos de uma comunidade do finado Orkut.
Foi num encontro com um desses amigos em São Paulo neste ano (2019) que resolvi matar a saudade dos chamados fumetti, os quadrinhos italianos. Estávamos em uma loja da Mythos, a principal editora que publica bonellis no Brasil. Lá havia diversas opções atraentes, como Hellboy ou Juiz Dredd, por exemplo. Mas seria um absurdo eu virar as costas para os bonellis. Procurando por edições com histórias completas ou de número 1, logo escolhi um encadernado de Dylan Dog, intitulado “Prelúdio para Morrer”. Além desse, comprei a edição de número 1 da mais recente série de Martin Mystère, intitulada “Intriga em Pequim”.
A sensação que tive ao ler essas edições foi muito especial. À medida que eu as lia, me sentia “em casa”. Em suma, os roteiros inteligentes e bem trabalhados, somados ao traço de desenhos que tanto admiro, fizeram da minha leitura uma atividade muito prazerosa. Eu, ocasionalmente, havia matado a saudade.
De fato, os quadrinhos italianos são muito diferentes dos que são produzidos nos Estados Unidos. Joana Rosa Russo, que trabalha na Editora Mythos desde 2018, confirma isso. Ela entrou na empresa como redatora do chamado Blog Mythológico (http://mythologico.com.br) e posteriormente assumiu a comunicação social da Mythos. Além disso, ela atua também como assistente editorial.
Joana explica que a Bonelli, principal casa italiana de quadrinhos, tem uma primorosidade no trato com os roteiros. Grandes pesquisas e apurações são feitas para que cada história seja produzida, e isso é um fato que nós, leitores, podemos facilmente perceber.
Lendo Tex, um quadrinho italiano de faroeste, percebemos o quanto os roteiristas pesquisaram sobre o contexto histórico deste fantástico período nos Estados Unidos. Inclusive os detalhes sobre a geografia dos locais, sobre as culturas indígenas, sobre a situação econômica do país durante aqueles tempos. Tex, o personagem principal, é um ranger, integrante da polícia especial dos EUA. Ao mesmo tempo, é um agente indígena e considerado chefe de um povo indígena, os navajos. Sendo assim, o ranger assume uma posição dupla e muito curiosa, que rende fantásticas histórias.
Mister No é um bom título para percebermos como são bem trabalhados esses roteiros, pois suas histórias se passam em território brasileiro. Muito aprendi sobre a nossa própria cultura lendo essa HQ. As histórias de Mister No se passam depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O personagem é um ex-soldado que fugiu da guerra para morar em Manaus, no Amazonas. Nessa região, ele trabalha como piloto particular de avião, e apesar das emocionantes aventuras em que ele se mete, sua intenção mesmo é ficar em paz, o que dificilmente consegue. Esse título em especial evidencia muito para nós brasileiros esse trabalho árduo que é a produção dos roteiros bonellianos. Infelizmente, pelas vendas baixas, esse título não está sendo publicado atualmente no Brasil.
Além desses, diversos outros personagens dos quadrinhos italianos me impressionam. São personagens mais humanos, com histórias mais próximas da realidade e menos fantasiosas (apesar de explorarem bastante o sobrenatural). Joana, da Mythos, conta que até existem alguns personagens mais proeminentes, mas que nunca chegam a ser super-heróis.
Refletindo sobre o porquê de eu gostar tanto dessa vertente de quadrinhos, e não tanto de supers e mangás, vou chegando a algumas conclusões. Simpatizo muito com os roteiros e os personagens, com suas características citadas acima. Mas os meus (e de tantos outros) motivos não param por aí. Os desenhos dos fumetti são muito agradáveis aos meus olhos, ao passo que os de outras vertentes não.
Joana seguiu me ajudando a entender os motivos de eu preferir tanto esse tipo de HQs: “Os quadrinhos italianos, em geral, gozam de um diferencial, mesmo no traçado: pelo berço artístico histórico que o eixo Italiano apresenta. O traço base é comumente mais limpo e firme. As alegorias que são utilizadas na composição do desenho, rachuras, aguadas e a própria carga de nanquim, são delicadas e fluidas, mesmo quando, propositalmente, são pesadas. As cores são delicadas e harmônicas e raramente causam incômodo visual (artes ditas “poluídas”), que no fundo, tem muita informação. Nota-se também que a produção italiana tem um diferencial enorme em sua escola: o nível de fidelidade e detalhismo em desenho são muito apurados.”
Meus conhecimentos sobre desenhos são praticamente nulos, mas, depois desta explicação, até que as coisas fizeram mais sentido para mim. O fato é que, sim, os traços dessas HQs me agradam muito, ao passo que os de outras vertentes nem tanto.
E pelo que parece meu perfil condiz com o de uma legião de fãs no Brasil. A assistente editorial da Mythos explica que, realmente, o público que consome quadrinhos italianos não converge com o de heróis em sua maioria: “Muito se deve ao tipo de narrativa heróica e plástica, de ação constante e enredo ritmado. Fora o tipo de arte, que tem uma construção muito diferente da europeia”.
No meu caso, comecei a ler Tex, e foi através desse título que desbravei esse leque de personagens incríveis. Acredito que esse deva ser o caminho que trilha a imensa maioria dos fãs dos fumettis.
Tex é de longe a HQ mais vendida da Mythos Editora. Segundo Joana, as vendas dos outros personagens dessa vertente como Mister No, Zagor, ou Dylan Dog não chegam nem a 10% das que o Tex possui. Em outras palavras, no Brasil não existe aquisição difusa entre os leitores de Bonelli. Ou seja, não é comum um leitor de Tex adquirir todos os produtos lançados pela casa. Seja pelo valor ou interesse.
Esse quadro de vendas acaba por me decepcionar. Apesar de ser um grande fã de Tex, gostaria que os outros títulos fossem mais valorizados. De qualquer forma, ao fim desta reportagem, sinto que as coisas ficaram mais claras. Começo a entender as diferenças dos quadrinhos italianos.
Mas isso não quer dizer que eu não valorize as outras vertentes. Muito me diverti com supers e mangás, quadrinhos brasileiros, quadrinhos independentes… Só me resta torcer para que esse mercado se fortaleça cada vez mais, pois defendo as HQs como uma forma única de produzir conhecimento e diversão, uma verdadeira modalidade da arte!
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