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O valor de um informante

Recentemente tive a ótima ideia de conferir o livro "O poderoso chefão", que figurava nas estantes de minha casa. Nunca o tinha lido, e para ser sincero não guardava grandes expectativas em torno da obra. Admito que seja um preconceito meu com o que há de popular na cultura. O fato é que eu me impressionei positivamente, pela riqueza de detalhes e pelas suposições coerentes. Afinal, nem mesmo integrantes da máfia sabem o que realmente se passa na cúpula de sua organização, a ponta da grande pirâmide. Restam-nos apenas suposições.

O livro me proporcionou diversas reflexões interessantes sobre como é a realidade não só da elite da máfia, mas da elite da sociedade como um todo. Ficou evidente a extrema importância dos informantes e dos sistemas de informação. De forma natural refleti sobre como esse recurso é vital para a manutenção do sistema que vivemos e a ordem das coisas dele. Contemplei o papel de figuras como Mark Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook. Uma rede social que não existia nos anos 40, época em que se passa a história do livro que li, mas que, se existisse, certamente seria alvo de muito interesse de Don Corleone.

Curiosamente, foi no mesmo período dessas reflexões que li uma determinada reportagem no site do Estadão. O título era este: " ‘Abin paralela’ de Bolsonaro tem de PMs a aliados". Já o subtítulo, complementando, dizia o seguinte: "Rede particular de informações citada por presidente em reunião é formada por agentes de órgãos de inteligência e policiais de elite".

Mas espere um instante, leitor contundente. Não se espante! Meu objetivo não é afirmar que Bolsonaro é um mafioso. Seria muito presunçoso da minha parte. Até porque Mussolini, como consta no livro, era um inimigo mordaz da máfia italiana. O que me prendeu atenção foi os motivos para nosso presidente, tal qual um grande mafioso, precise de um sistema de inteligência particular. Além disso, vou ser ainda mais moderado, vou dizer que certamente os presidentes anteriores tinham um recurso parecido.

O que me preocupa é o contexto que faz esse sistema de informação particular ser tão urgente e necessário. Isso só acontece devido a postura radicalizada de um presidente que aparece de cavalo acenando a manifestantes que reivindicam o fechamento de um congresso e de um supremo tribunal. Sinto que o povo esta demorando a perceber que nosso país está à beira de uma guerra civil. O que me dá esperanças é ver que, aos poucos, Bolsonaro vai se autodestruindo e perdendo bases de apoio. Desde Dória a Sérgio Moro. Carlos Wizard, que pediu desculpas por determinadas afirmações e pulou do barco, recusando fazer parte de uma secretaria. Até mesmo Olavo de Carvalho, nessa semana, xingou o presidente de covarde e o ameaçou em derrubá-lo do poder. Mas esse último, é claro, não foi por bom-senso. Mas, de qualquer forma, foi uma perda para a família Bolsonaro.

Foi na fatídica, estarrecedora, e até cômica reunião ministerial de 22 de abril que Bolsonaro falou abertamente sobre seu sistema particular de informações. Também desdenhou do trabalho da ABIN, da Polícia Federal e dos centros de inteligência das forças armadas: “Sistemas de informações: o meu funciona. O meu, particular, funciona”, disse. “Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho.”

Trata-se de uma fala um tanto egocêntrica. Lembra a postura dos mafiosos de livro que li. Mas não, Mussolini não era mafioso.

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