Lembro-me, com lampejos de nostalgia, do dia em que meu tio me apresentou uma certa história em quadrinhos quando eu tinha uns 9 anos de idade. Ele estava determinado a me iniciar com o bom e do melhor, e, sendo assim, botou uma edição do Will Eisner no meu colo. Os fãs da nona arte sabem de quem estou falando, e certamente saberão do exemplar em questão: "A história de Gerhard Shnobble". Trata-se da história de um vigia de banco que sabia voar, mas não divulgava seu talento. Não vou cometer o crime de dar spoilers, porém saiba que essa história emocionou gerações de leitores.
Recordo-me bem daquela manhã de final de semana, em toda a sua paz, quando não temos uma aula para assistir ou um expediente para cumprir. Eu estava relaxado no sofá da sala, onde as cortinas tremulavam suavemente e a televisão lançava silenciosos ruídos de algum filme da Disney. Até que a obra-prima chegou em minhas mãos. Eu era um garoto normal, que gostava de brincar e jogar video games, e tinha preguiça de ler. Entretando, decidi corresponder aos anseios do meu tio de me trazer ao edificante hábito das leituras.
Com esforço fui acompanhando a sequência de quadros, até que, finalmente, concluí a história. Pronto, estava feito o meu dever de casa. Logo me botei às preocupações comuns de criança. Todavia, uma semente germinava. No fundo eu gostei bastante da história, pois era uma narrativa curiosa, cuja conclusão me emocionou e me pôs a refletir. Eu ainda era malandro e tinha preguiça de ler, mas os quadrinhos acabaram adentrando meu universo infantil.
Ainda naquela época, certo dia, notei revistas da Turma da Mônica nas prateleiras de um supermercado. Sem pensar muito, em um ato mais consumista do que de leitor, comprei uma edição. Em casa, ao lê-la, fiquei satisfeito. Era uma leitura fácil e leve, que me fazia sentir mais digno. Logo comecei a comprar regularmente essas revistas. Por semana, eu ia duas, três e até quatro vezes na banca de jornal, cujo dono se habituou a ver minha cara.
É provável que essa carga de leitura tenha sido a fonte das poesias, estrofes e rimas que eu escrevia em todas as provas da escola. Entre elas, a que eu e minha mãe lembramos com mais facilidade é esta:
"Olha aí,
O saci fazendo xixi!"
A rima, é claro, contava com uma ilustração do saci urinando.
Cedo ou tarde eu iria querer variar um pouco minhas leituras. Não lembro bem desse belo dia, mas em algum momento eu ampliei minha visão sobre as prateleiras da banca e notei as revistas do Tex. Ali, certamente me fascinei com os desenhos de faroeste, onde pistoleiros empunhavam suas armas com destreza, cavalgavam em alta velocidade, e lutavam em cenas de ação.
Mas, o que com certeza chamou minha intenção foi a figura do índio, com seus cocares, suas pinturas corporais, seus arcos e flechas e machadinhas. Naturalmente me encantei com o conteúdo das histórias também, onde pude conhecer um estilo de vida totalmente alheio ao nosso, vinculado às forças da natureza. De fato, ainda hoje sou encantado pela lógica da culturas indígenas. E isso me fez ler quadrinhos de faroeste exageradamente.
Na escola, lembro bem da Oficina de Leitura. Ali, desinibido e empolgado, contava histórias para a turma, encenando um pouco também. Os colegas aprovavam e riam, mas sem maldade. Pelo contrário, me incentivavam e curtiam o momento. Nesse local também empreendi grandes esforços para fundar o clube do Tex. Queria incentivar e, de certa maneira, pressionar meus amigos a ler também. Recordo-me como se fosse agora de fazer isso, sentado na mesa com os amigos, que se entreolhavam risonhos, dando trela.
O tempo passou e eu continuei lendo muito. Mas, por alguns períodos, admito, essas leituras diminuíam um pouco. No caso dos livros era eventualmente. Eu era malandro e preguiçoso, e estudava o mínimo para passar de ano.
Foi na sétima série, quando eu tinha 12 ou 13 anos, que voltei a ler bastante quadrinhos. A coleção aumentava e eu a vislumbrava nas estantes cada vez mais fascinado. O que eu não sabia, e que hoje noto com clareza, é que eu estava produzindo conhecimento com aquilo. Inconscientemente eu estudava a arte das narrativas e das histórias. Além disso, meu Português evoluía muito.
Inclusive eu tive um blog, onde postava singelas resenhas sobre "Júlia - As aventuras de uma criminóloga", um de meus quadrinhos preferidos. Também cheguei a iniciar uma história em parceria com um desenhista, amigo meu da internet, mas que acabou não saindo da primeira página. Como disse anteriormente, eu era preguiçoso.
Eu também participava de diversos fóruns sobre quadrinhos na internet. Neles, recebi dicas e comecei a desbravar outros universos também. Um deles eram os quadrinhos adultos da Vertigo, um selo adulto da DC Comics. Histórias sobre ocultismo, misticismo e o sobrenatural de títulos como Sandman, Hellblazer e Monstro do Pântano me levavam para outros campos da imaginação e do saber. Já os universos dos super-heróis nunca me encantaram, e até hoje não sei por que. Até hoje reflito sobre isso, mas nunca chego a respostas concretas.
Foram tempos de muita leitura e aprendizado até os meus 15 ou 16 anos. Ali eu desviei um pouco de foco. Não poderia deixar de salientar um problema com bebidas. Em todos os malditos finais de semana eu abusava do álcool. E isso acarretou em diversas situações vexatórias e atitudes de que eu me arrependo até hoje. Eu só pensava sobre bebidas, festas e garotas, e meu hábito de leitura diminuiu. Eu ainda lia, mas menos.
Pulando um pouco no tempo, era hora de escolher para que curso iria prestar vestibular. Eu estava indeciso, só sabia que queria algo na área de humanas. Isto posto, minha mãe me sugeriu Jornalismo, e eu segui o conselho. Hoje, escrevendo esse texto, agradeco-lhe, conquanto eu ainda não esteja inserido no mercado de trabalho. Escrever é mágico e me realiza. O tempo iria me pôr nos eixos.
Nunca me esquecerei dos meses de agonia que sucederam meu vestibular. Eu não havia passado por um décimo, mas tinha boas chances de ser chamado devido a vagas que surgem oriundas dos desistentes. Por outro lado, nesse período eu fiz um curso de redação tanto na possibilidade de me preparar para um novo vestibular, quanto na de já aprimorar meus conhecimentos para cursar Jornalismo. Ali escrevia regularmente, e eu gostava de me expressar através daqueles chatos e padronizados modelos de texto dissertativo. Também procurei ler bastante revistas e jornais.
Eu fui chamado, e na semana seguinte lá estava eu na universidade, com um sorriso de orelha a orelha, fazendo a matrícula. Foram bons e aliviantes dias. Mas não poderia deixar lhes de contar que se iniciava também um certo problema com a maconha. Um problema que desviou durante seis anos o meu foco da escrita e da contação de histórias. Há quem goste de ler e escrever depois de fumar, mas esse não era o meu caso. Eu perdia a concentração e acabava produzindo textos fracos. Vacilava com a objetividade das notícias e reportagens, além de confundir-me na hierarquização de informações.
Bom, nesses seis anos eu tive alguns surtos e delirei algumas vezes. Eu captava erroneamente a realidade ao meu redor, e interpretava mal tudo que eu via. Desenvolvi uma mania de perseguição, ou crise do pânico, e achava que todo mundo queria me prejudicar. Por fim, cheguei ao ponto de ser internado em dois hospitais psiquiátricos, com delírios sobretudo no âmbito da religiosidade. Eu vivia agoniado, segurando o choro, e por isso procurei a religião. Só que isso acabou piorando meus delírios e a minha situação. Achava que tudo era coisa do diabo, ou dos santos, ou de Deus.
Eu não sei até que ponto a maconha ocasionou tudo isso, e não quero pisar nos perigosos campos da polêmica. Mas estou certo de que ela tem sim influência no que aconteceu. E o recado que eu quero passar aos meus leitores usuários, entre eles grandes amigos, é que não é porque seu organismo aceita bem certa substância que o mesmo acontecerá a outrem.
Mas espere um instante, leitor contundente, não agonize em comiseração! Também vivi ótimos momentos na universidade. Fiz boas amizades, li materiais maravilhosos, participei de debates interessantes e escrevi inúmeros textos. Diabo, cheguei a apresentar um telejornal! O que eu quero deixar claro é que de certa forma eu aproveitei o que a academia tinha a me oferecer. Produzi conhecimento. É indiscutível que eu poderia ter aproveitado mais, e eu me arrependo disso, mas hoje eu noto que não foi tudo em vão. Da mesma forma como, em criança, li contrariado uma história em quadrinhos mas despertei uma paixão, apaixonei-me pela escrita.
Creio que um dos motivos de eu amar escrever é o fato de eu ter muita dificuldade de me expressar pela fala. Considero minha oratória péssima, e é por isso que nunca me aprofundei no radiojornalismo e telejornalismo. O fato de eu conseguir expressar o que passa na minha mente me fascina na escrita. Assim eu tenho tempo para pensar, planejar, e exprimir exatamente o que eu quero. Também gosto da ideia de mexer com os sentimentos dos leitores através das palavras, além de provocar reflexões.
Entre as histórias que eu vivi na universidade, escolhi contar especificamente uma por considerar que ela é a ideal para proposta desse texto. O incidente aconteceu durante as aulas de uma determinada disciplina, cujo nome e professor não vou citar aqui.
Na primeira aula dessa matéria, chamou-me atenção o conteúdo e a oralidade do professor. Ele era muito inteligente e se expressava muito bem. Eu gostei do que ouvi naquela aula, pois nela foram expostas concretas orientações e técnicas para a escrita. Não eram coisas vagas. Lembro também do texto que nós, alunos, fomos convidados a ler. Era um material muitíssimo bom e interessante. Portanto, eu criei grandes expectativas para aquela disciplina.
Minhas boas impressões continuaram na segunda aula. Talvez na terceira também. Eu não lembro em qual delas aquele professor começou a corrigir nossos textos, mas foi nesse ponto que meus problemas começaram. Com o tempo percebi que o cara era rude demais. Nunca tivera um professor tão grosseiro, e eu não conseguia acreditar no que presenciava. Ele xingava vorazmente os textos que não gostava, e não estava nem um pouco preocupado se os alunos se ofenderiam. Certa aula, por exemplo, ele abandonou um texto meu na primeira linha, revoltado, vociferando. E aquilo me atingia.
Lembro bem do desprezo desse professor ao ouvir uma certa expressão que escrevi erroneamente. Eu tinha que ler meu texto em voz alta com a turma toda em silêncio, a me ouvir. A revolta com que ele recebeu meu erro, ali, em frente a todos, atingiu-me como uma flecha no coração. O que sobrou desse meu órgão seria destroçado em outra ocasião, quando ele disse que meu texto era um dos piores da turma.
As minhas notas em redação, até aquele semestre, eram relativamente boas, e eu não estava preparado para passar por aquilo. Eu não sabia que meu texto era tão ruim, e nenhum dos professores anteriores foram tão duros comigo. Eu estava arrasado. Era como uma grande decepção amorosa, ou a morte de um ente querido. E isso é um forte indício de como a escrita já era importante para mim. Se eu a considerasse uma atividade qualquer, com certeza eu não estaria tão abalado.
Certo dia, eu estava sentado no meu computador, relendo o meu texto da semana, aguardando o atendimento do professor. Lembro que uma forte aflição e adrenalina perturbavam meu espírito. Mas, em meio a isso, havia também a esperança de ter acertado naquela vez. E de grandes esperanças, por vezes, vêm grandes decepções.
Eu lembro que quando foi a minha vez, mal o professor começou a ler meu texto, eu já estava ofegante e nervoso. Logo ele começaria a gritar comigo. Eu, com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos na cabeça, tentava controlar meus sentimentos, que estavam à flor da pele. Um nó se formava na minha garganta, e eu combatia para segurar o choro. Foi um combate implacável, e eu me admiro por ter conseguido vencê-lo. O professor, por sua vez, parecia querer a minha derrota.
Aquilo me marcou profundamente. Entretanto, eu não poderia deixar de apresentar o contraditório.
Desde aquela disciplina, passei a valorizar muito mais a leitura e a escrita. O professor, em seu modo hostil, nos pressionava a ler mais, e isso funcionou. Desde então, a simples visão de um livro, de uma página, traz-me uma indizível sensação de dignidade. Além disso, estava claro: não há como escrever bem sem constantes leituras.
Aquilo tudo evidenciou que eu ainda tinha um longo caminho a percorrer. Passei a levar mais a sério a produção textual. Às vezes, escrevendo, quando estou prestes a cometer um erro, lembro dos brados desse professor. Acabo corrigindo coisas que antes passariam despercebido.
Em suma, a leitura e escrita passaram a ser algo muito mais importante para mim. Com elas, sinto-me mais digno.
Passada essa tormenta, eu persisti no curso. Conheci o jornalismo literário, o conto, a crônica, entre outros. Esses gêneros me fascinaram, pois com eles eu sentia uma enorme liberdade. Com eles, eu não sentia o terrível medo da objetividade jornalística, que até hoje eu vou aos poucos superando.
Os anos passaram e eu consegui me formar. Meu TCC foi uma grande reportagem sobre turismo religioso, e a nota foi 9. Bom, eu não sei qual é o limite de caracteres do tumblr, e por isso não vou me prolongar. Só queria agradecer à minha mãe e à minha orientadora, as quais não me deixaram desistir.
Posteriormente mais uma vez a literatura, a reportagem e a contação de histórias contribuíram em minha vida.
Foi num carnaval que conheci a cocaína, em toda a sua força e brutalidade. Foi tudo muito rápido, e logo eu estava viciado, gastando grandes quantias naquele maldito pó branco. Não vou entrar em detalhes, só vou contar aqui como superei esse problema.
Em um ou dois meses eu já estava abrindo o jogo para minha psiquiatra, a qual foi muito eficiente. Ela, ao notar o poder da literatura na minha vida, sugeriu-me a procurar um curso de escrita. O curso tem sido bom, e os textos vêm sendo terapêuticos para mim.
Hoje me sinto sereno e realizado, tal qual em adolescente, quando devorava quadrinhos de faroeste.
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