Há uns dois meses, venho frequentando uma igreja próxima de minha casa. Descobri-a por acaso, pois a igreja matriz da região está de férias. Então, nesse período, um certo grupo de mútua-ajuda está se reunindo nessa outra igreja menor. Minha mãe participa desse grupo, que é destinado a codependentes.
Para quem não sabe, “codependentes” são familiares de dependentes químicos. No caso, eu sou o dependente químico, ou adicto. Mas, de antemão, aviso que estou limpo, em recuperação (como é dito nesse meio) e peço à Virgem Maria que não me deixe voltar para onde eu lutei muito para sair.
Minha mãe estava lá na primeira reunião das férias, e eu decidi acompanhá-la dessa vez. Mal sabia eu o que viria a acontecer. Logo no início, nas apresentações, eu senti uma energia muito forte de pessoas sofridas e angustiadas. Um forte nó na garganta começou a me atormentar, posto que eu odeio me emocionar em público.
Eu sabia que seria algo diferente das reuniões de Narcóticos Anônimos, pois em NA a maioria dos adictos está limpa ou “em recuperação”. Entretanto, na reunião de familiares, muitos casos ainda não estão solucionados, estão na “efervescência” do problema. Em outras palavras, são familiares de adictos que não estão limpos ou em recuperação. Casos não resolvidos.
Lá, passou um filme em minha mente, lembranças vieram à tona e, na minha vez de partilhar no meu subgrupo, não consegui segurar as lágrimas. Como disse, detesto demonstrar tamanha fragilidade emocional, e isso é tema na minha terapia. Foi uma situação dramática para mim.
Foi assim que eu conheci a Igreja Puríssimo Coração de Maria. Desde então, quando vou na missa aos sábados, tenho a lembrança daquele fatídico dia, e isso é marcante para mim.
Em poucas missas e confissões eu pude conhecer um certo padre muito sério, quieto e fechado. Não quis fazer prejulgamentos, mas fiz questão de segui-lo no Instagram. Ali, descobri que o sujeito tinha livros publicados. “Ora, vamos ver qual é a desse cara!”, pensei. Adquiri o livro digital e estou lendo em um tablet.
Foi uma grata surpresa. O indivíduo é muito bacana. O livro que eu baixei é um tipo de diário, em que ele narra seu dia-a-dia com suas impressões e sentimentos. Aliás, não é o primeiro diário ou autobiografia de religiosos que eu leio, e posso garantir que é muito interessante.
Venho constatando que o livro está me ajudando de formas bem concretas, e vou citar dois exemplos.
No livro, o padre narra a sua vida em um período que morou em um convento. Em uma das vezes que ele fala do dia a dia no lugar, ele conta que, a partir de um certo horário da noite, o Wi-Fi, ou internet, não é disponibilizado nos quartos dos freis. Aquilo me fez refletir bastante e logo imaginei que essa medida possa ser bem eficaz no quesito da qualidade do sono. Além disso, é um momento em que eu poderia me dedicar inteiramente à leitura ou escrita, afinal, o celular rouba nossa atenção.
São diversas as vantagens de manter o celular longe ou desligado. É uma obviedade. Sendo assim, inspirado pelo livro, tracei a meta de desligar meu celular todos os dias a partir das 21 horas! É um horário bem escolhido.
Em poucos dias, os resultados são bem visíveis. Venho lendo mais, escrevendo mais, driblando a ansiedade e pegando no sono mais cedo. Comecei até mesmo a rezar o terço mariano e, quando inspirado, arriscar o rosário, que é mais longo. Mas, por incrível que pareça, não é todo dia que consigo cumprir esse propósito. Às vezes, perto das 21h, recebo uma mensagem ou visualizo uma postagem que mexem comigo, e acabo não desligando o celular. Devem ser as malditas descargas dopaminérgicas!
Segundamente, notei no livro que o frei costumava caminhar e correr em um parque próximo ao seu convento. Ele narra os dias em que ele está com preguiça, outros que está mais animado, os que ele fica só na caminhada, em outros arrisca a corrida. Eu me inspirei nele e venho praticando umas caminhadas de 3 km. Planejo o dia que, nos trechos mais planos e vazios, vou arriscar uma corrida. Esse dia não chegou, mas espero que consiga.
E assim vou vivendo…
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