"De manhã cedo tudo parece em câmera lenta", constatava o pacato Moacir. Estariam florescendo nele lampejos poéticos? Afinal, quantos poetas promissores deixam de ascender, sequer atinam com seu talento, devido a necessidades de trabalho e consumo? Fato é que nosso inusitado "flâneur" estava de folga, e, escusadas quaisquer neuroses do dia a dia, despertou-lhe magias artísticas.
Caso fosse possível avistar o estado da alma das pessoas, naquela rua, destacaria-se a do transeunte Moacir. Seria colorida em meio a tantas apagadas. Em inédita demonstração de obséquio, ajudava serenamente uma velha senhora a carregar sacolas de compras. Após, voltava a circular sem destino nas tortuosas e sujas vielas e ruas de sua comunidade.
Por vezes, Moacir parou em praças, onde se sentou e apreciou o vento matinal fresco. Sua teoria sobre o que acontecia era que, de maneira inconsciente, ele teria se desligado de qualquer problema. Após brincar com alguns garotos que soltavam pipa, foi tomar café em uma lanchonete da região. Aquele sóbrio bem-estar era notável, e ele só queria curtir o momento.
O por ora contemplativo homem provava, embora ignorantemente, uma sensação que droga nenhuma provém. Era como a amostra de um mundo diverso, cuja lógica atende a outros preceitos. Moacir vivera o drama dos narcóticos, e por isso valorizava essa serenidade natural, de uma liberdade edificante. Com efeito, sabia que aquele era um dia bom. Ao seu derredor, contudo, o mundo corria. Subitamente, um bobo acidente entre carros seguido por uma briga corporal ameaçavam aquele momento. Logo, a reação de nosso curioso caminhante foi de se afastar e continuar o passeio.
A caminhada continuava, e, porventura, Moacir passaria próximo a um ponto de venda de drogas. Ali, um jovem rico e forasteiro tratava com traficantes. O jovem, amedrontado, tinha pressa e queria partir o quanto antes; ao passo que os risonhos traficantes, cientes disso, demoravam propositalmente. Até que o terror de todos ali presentes, ou melhor, de toda a comunidade, surgia. Uma viatura da polícia virava a esquina, dando início a uma debandada desesperada.
Por sorte, nada aconteceu com Moacir. Ou melhor, nada no plano físico. No plano espiritual, onde o homem se regozijava imensamente, uma bruta agressão acontecera. O mundo não parecia mais em câmera lenta. De forma sutil, uma ansiedade surgia no peito dele. Pensamentos estressantes também: contas a pagar, um celular a comprar, uma obra a ser feita em casa...
Uma forte preguiça também passou a se apoderar do corpo de Moacir, levando-o a voltar para casa. Ao fim e ao cabo, seu patrão ligava para reclamar de algo. Estava assim dizimada uma experiência especial. Contudo, resquícios disso ainda sobreviviam no âmago do homem. Ele estava reflexivo, questionando sobre as coisas do mundo real.
"Os homens precisam viver assim?", pensava ele. Transformado por uma linda manhã de final triste, notava o caos, a competitividade e o individualismo do mundo atual. Sua alma se elevou naquelas misteriosas horas. Para a felicidade dos revolucionários, nascia assim um sonhador.
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