São diversos os acontecimentos que fortaleceram minha fé e meu encantamento pela religião. Um deles foi marcante ao extremo e me fez registrar textualmente para a minha eternidade. E o mais fascinante é que esse tipo de registro é terapêutico e gratificante para o escritor, pois amadurece a interpretação de suas vivências.
No final do meu curso de Jornalismo na universidade, eu vivia um período tenebroso de paranoia, ansiedade e delírios. Eu precisava produzir um TCC e me considerava incapaz para fazê-lo. Por muito pouco não desisti. Inicialmente, o tema era sobre torcidas organizadas do futebol brasileiro. Porém, conforme eu dava meus primeiros passos, eu fui percebendo que esse era um tema inviável por muitos motivos.
Naquela época, eu já estava espiritualmente desesperado, pedindo ajuda e misericórdia ao Poder Superior. É inacreditável o estrago que o uso de maconha me causou. Lembro de rezar fervorosamente, mas ainda não tinha feito certas renúncias. Eu ia todas as semanas ao centro de Florianópolis para comprar livros católicos na livraria da catedral metropolitana. Já tinha uma verdadeira coleção, mas não me sentia capaz de abandonar muitos pecados.
É por isso que eu vislumbrei a possibilidade de escrever sobre o catolicismo para o meu TCC. Eu pesquisaria e me aproximaria de algo que me fortalece. Posto isto, escrevi sobre turismo religioso em Santa Catarina. Foi um breve período de lucidez na minha vida, pois minha psiquiatra havia me convencido a não fumar maconha naqueles meses.
Tempos depois, o sucesso do trabalho me faria crer que isso era uma verdadeira graça alcançada, levando em conta o dramático estado mental, espiritual e físico que eu vivia. Só eu e Deus sabemos da dor e o desespero pelo qual passei. Meus pais e minha psiquiatra tinham uma certa noção também.
Esse é o contexto do dia em que eu estava acomodado no sofá da casa da minha tia. O tema específico do meu TCC ainda não tinha sido decidido, eu só sabia que queria escrever sobre religião. Eu estava lá porque o apartamento em que eu morava estava em reforma. Estava sozinho na casa dela. Tinha alguns livros católicos comigo e estava lendo eles de forma assídua e compulsiva.
De forma gradual e suave, notei que minha vista estava meio “embaçada”. Pisquei os olhos e esfreguei a mão neles, mas algo não saía da vista. Eram luzes bem discretas. Aos poucos notei que essas luzes transformaram-se em linhas extremamente suaves, que pareciam tremular bem devagar ao vento. As linhas ondulavam. Eram de um branco e um amarelo fraco ou claro. Aos poucos essas linhas tomaram um certo contorno. Eu fiquei paralisado e boquiaberto, acreditando que se tratava de algum fenômeno normal da minha vista. Até que essas linhas suaves formaram a silhueta da minha falecida vó! Era o contorno da parte superior do corpo dela, a cabeça, o pescoço e um pouco abaixo disso. Ela abanou para mim e mexeu a cabeça exatamente como ela fazia em vida, sorrindo de forma carinhosa. Trejeitos característicos dela.
Eu sempre tive extremo medo do sobrenatural, e nunca quis ser um médium espírita e ter visões e outras coisas do gênero. Entretanto essa experiência não me amedrontou nem um pouco! Foi sereno, leve e confortante. Outro detalhe: eu não fumava maconha há semanas, nem consumia nenhum outro tipo de substância alucinógena. Até hoje eu não excluo a possibilidade de aquilo ter sido uma alucinação, mas eu realmente tive essa visão.
Posteriormente, guardei essa experiência na memória e no coração, sempre tentando interpretar o sentido do acontecido. Consegui me formar e comecei a procurar alguma oportunidade profissional. O melhor que consegui foi um trabalho voluntário na Câmara Municipal de Florianópolis, de cuja portaria pode-se visualizar a entrada da livraria da catedral! Por um tempo, também interpretei isso como uma graça alcançada, pois antes disso eu havia frequentado muito aquela livraria. O fato de uma oportunidade profissional ter sido bem na frente daquele lugar me chamou atenção.
Porém o tempo passou e, aparentemente, minha fé também. O ceticismo tomou conta de mim. Ateísmo é pouco para definir o que se passava. Lembro de ouvir certas músicas satânicas, o metal, nos eventuais tempos livres daquele trabalho voluntário.
Eu vivia a rebeldia contra Deus. Sentia prazer ao ouvir essas músicas e queria realmente ser um metaleiro satânico e doidão. Tal qual Ozzy Osbourne. Foi justamente em um bar de rock das proximidades que eu tive uma das minhas primeiras experiências com a cocaína. Foi a partir daí que me viciei nela.
Meses se passaram, a minha adicção progrediu muito, e eu estava usando cocaína diariamente. Mas aquela experiência de ver minha falecida vó não tinha sido apagada de minha memória e do meu coração. É por isso que eu havia colocado uma foto bem grande do rosto dela sorrindo como tela de fundo do meu celular.
Certo dia, eu tinha ido em um morro comprar cocaína. Já não conseguia esperar chegar em algum lugar para usar a droga. Parava o carro em uma rua próxima da boca de fumo e usava ali mesmo. Eu estava estacionado, e tinha que amassar a pedrinha de cocaína para esfarelá-la. Coloquei ela em cima da tela do celular, peguei um cartão e amassei, como de costume. Até que aconteceu algo que me marcaria para sempre: a tela acendeu, apareceu então o rosto da minha vó e, conforme eu pressionava a droga, a tela se estilhaçou! Rachou!
É claro que, como um homem de fé que sou, mesmo em tempos de rebeldia, interpretei aquilo como um sinal: perdera para sempre a confiança da minha vó! Aquilo entristeceu meu coração de forma absurda, mas essa experiência marcante não foi o bastante para eu largar a droga.
Eu só estou largando a droga atualmente, depois de ingressar em Narcóticos Anônimos. Foi ouvindo os companheiros dessa irmandade que abandonei a rebeldia contra Deus e passei a praticar a gratidão pela vida! Sei que a rachadura que causei no coração de minha vó é permanente, mas estou buscando as devidas reparações. Em outras palavras, a cada dia, procuro me tornar um ser humano melhor. Espero um dia encontrar minha vó na luz!
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