O som do remo rasgando as águas salinas poderia servir de sonífero às almas mais inquietas. Era uma úmida e nebulosa madrugada de inverno na Ilha de Santa Catarina. A névoa pairava na baía e embaçava a vista da iluminada ponte Hercílio Luz, estabelecida no horizonte. Não havia vento, o que facilitava a navegação do pequeno barquinho. De certa forma o clima favorecia um furto de ostras, e Odinei cogitou agradecer a São Pedro, todavia sua consciência não permitia.
O silêncio na prainha era reinante. Destacava-se o espatifar das módicas ondas na areia, que produziriam um efeito inebriante a um bom poeta. Tratava-se de um extremo do gritante e invisível contraste que ali subsistia. O outro era o estado de espírito de Odinei. Tal condição poderia ser definida como uma overdose de adrenalina. Suas mãos eram pura trepidez, porém manuseava o remo com destreza. Odinei sabia que, espreitando as ostras do concorrente, doravante levantaria suspeitas de qualquer nativo que presenciasse a cena. Cada segundo poderia ser determinante, portanto o ladrão não mirou sua retaguarda, nem mesmo de soslaio.
Acima das névoas e nuvens, a lua deitada contemplava Odinei de pé. Ademais, o bucólico astro estava sendo usado como um divã por um sujeito demasiado caricatural. Sabe-se lá de que ou de quem era tal representação, tampouco a quem era destinada. O fato é que lá estava um pirata parrudo, acompanhado por uma garrafa de aguardente e um papagaio gagá. Quanto mais Odinei se aproximava das cobiçadas ostras, mais o pirata se regozijava lá de cima, com movimentos viris e violentos sobre o régio divã. O papagaio, por sua vez, sentia a agitação de seu companheiro, e logo se pôs a berrar repetidamente:
- Terra à vista!!! Terra à vista!!!
Pode-se esperar o que de um pobre papagaio, cujo insano dono, com seus camaradas, enfrentara navios que escoltavam a própria família real portuguesa? Que mais peripécias ultramarinas teria vivido o bêbado e barbudo pirata? O seu comportamento ante o ato furtivo traía um espírito inescrupuloso e aventureiro. Gargalhadas estridentes irrompiam do lânguido divã.
Pouco a pouco, a icônica imagem foi desfalecendo, transformando-se em diáfanas linhas e formas nebulosas. Logo as estridentes gargalhadas foram desaparecendo, e, em seguida, a frase "terra à vista" também foi perdendo força, até sumir. Por fim, a lua perdia a qualidade de divã, e retornava a seu estado original.
De volta ao plano terreno e marinho, Odinei chegava à estrutura de madeira onde estavam amarradas as ostras do concorrente. A adrenalina ainda dominava seu corpo, mas de forma mais branda. Ele era do tipo de ladrão que agonizava nos momentos preliminares, mas desde que iniciado o ato, ele recuperava o controle. Rápido e cauteloso, retirou os repositórios de ostras da água, colocou no barco. Tomou a direção da praia e retornou, à medida que seu nervosismo diminuía.
Frio, ninguém estaria na Rua. Exceto as bruxas.
Perto dali, em uma clareira, três bruxas realizavam rituais. Tais mulheres haviam escolhido um lugar especial: um sítio arqueológico, ou funerário, onde os povos indígenas pré-coloniais, que se estabeleceram no local há mais de 5 mil anos, enterraram seus mortos. Ali, a energia xamânica imperava e, naquele dia em específico, se misturava ao paganismo fervoroso das três feiticeiras.
Elas procuravam invocar entidades do panteão greco-romano e de um certo povo originário da Angola. Não imaginavam que ali, no outro plano, só estava a alma de uma sombria e silenciosa bruxa, a qual viveu no século 18 na região. Trata-se de uma das mulheres que causavam frio na espinha dos cristãos de Nossa Senhora do Desterro. Sua perfídia e seu aspecto marcaram época, e geraram lendas que sobrevivem até os dias atuais. Ela observava e ria das modernas feiticeiras, por não realizarem sacrifícios. Concordo, os sacrifícios são práticas brutais e desprezíveis, todavia não podemos negar que eles podem ter um grande potencial na magia. A indizível energia da morte, convertida no que o feiticeiro quer, pode ser derradeira. E os que discordarem disso não passam de fanáticos contaminados pelo monstro da política! Assim também o é com a energia transitória e germinante do nascimento, mas a ciência ainda não pode nos garantir qual o determinado momento que a alma surge na matéria.
Essa era uma noite caricatural na praia do sambaqui, cuja relevância os mortais em vida nunca conhecerão.
Passaram-se alguns minutos, e o ladrão já estava à areia carregando as ostras para o seu carro. Conforme o tempo passava, os riscos diminuíam e o ladrão recobrava a serenidade. Ele estava fechando o porta-malas do carro quando ouviu berros. Seu coração subiu para a boca e parecia pesar o triplo. O meliante logo olhou em volta e viu, de longe, mulheres desnudas que extravasavam nas águas de uma outra prainha. A visão das nuas mulheres serviu de chave de ouro para Odinei, que soltou uma enérgica gargalhada.
Após duas horas, e Odinei já estava na casa de sua mãe vangloriando-se por seu feito com seu irmão mais velho. Esse, por sua vez, agonizava em desespero:
Vai dar merda, Odinei!!! Vai dar merda, o Jucilei não é bocó não!!!!
Odinei relaxava com seu copo de cerveja, enquanto seu irmão mal conseguia segurar seu café de nervosismo. As primeiras luminosidades do dia irrompiam, e o vento sul, que começava a vir forte da baía, fazia vibrar as janelas da singela casa.
No meio da tarde desse dia, os pescadores estavam em sua rotina habitual na praia. Até que berros quebraram a calmaria no local. Jucilei, o roubado, vociferava em frente aos barracos de pesca:
Quem foi? Quem foi o filha da puta que pegou minhas ostras?
Outros pescadores tentavam, em vão, apaziguar os ânimos de Jucilei. Mas o seu ódio por ladrões não dava tréguas. Ora, ele, um trabalhador incansável, passara meses criando suas dúzias de ostras, para depois um verme ladrão de trabalhador surrupiá-las?
Logo, um bolo de pescadores se formou na rua. Jucilei, pescador astuto, percebeu que ali estavam todos os pescadores da região. Era muito provável que o autor daquela vergonha estivesse dentre eles. Eis que Jucilei, forte e másculo, em uma manifestação de grande virilidade, “jogou um verde”, gritando esses dizeres:
Eu sei que foi tu, seu filha da puta! O Pedrinho viu tudo e me contou, seu viadão do caralho! Vem pro pau!
Odinei mordeu a isca como um peixe, e alucinado em nome da honra de sua mãe, correu para a fatídica briga. Ele era fraco e levou assustadores socos e chutes até que o bolo de pescadores chegou para apaziguar a situação. Curiosamente, alguns pescadores acabaram machucando outros, que iniciavam brigas paralelas. Crianças choravam, mulheres berravam, e o tempo tardava a passar.
Até que tudo acabou, assim como uma chama se apaga, e os pescadores voltavam à rotina. Salvo Odinei, o ladrão inexperiente, que procurava o seu dente da frente!
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