Jamais me debrucei sobre as ciências biológicas, tampouco sobre a medicina e a psiquiatria. Já rondara em minha mente a ideia de ler Freud, e isso, caso você continue esta leitura, fará sentido. Não obstante, fascinei-me com certas afirmações as quais, na minha completa ignorância quanto a estudo da mente, fomentaram recorrentes reflexões em meu imaginário.
Foi com um cômico pesar que descobri tais afirmativas serem falsas. Não, o cérebro humano não funciona com dois lados separados, um atendendo aos estímulos da lógica, e o outro, por sua vez, da criatividade. Estava pois perdido o gancho desta crônica! Todavia, divague à vontade, o texto literário tem sua imensurável liberdade em detrimento da retidão dos outros gêneros. Almejo discorrer sobre os âmbitos da lógica e da criatividade, e um determinado mito cibernético será definitivamente meu gancho. Trata-se dessa bilateralidade o insólito título, e que os impiedosos críticos do gerúndio vão para o diabo!
Acontece que, motivado pela maldita “fake news”, por vezes me flagrei em íntimas reflexões sobre mim. Esse mito me marcara pois, de repente, algo passara a fazer muito sentido: apenas um lado de meu cérebro trabalha! Não que eu seja um astro da criatividade e um analfabeto das ciências exatas, porém o fato é que eu vivo imerso no campo da imaginação, e qualquer desafio lógico me amedronta vorazmente.
Cativa-me todas as modalidades da arte, e me entrego para qualquer coisa de artístico, que provoque sentimentos e sensações, além de fomentar a reflexão. Esse lado me fascina profundamente, representa a mim algo essencial, edificante e nobre. É como uma paixão ardente, rejuvenescedora, que nos concede uma vontade imoderada de viver.
Ao inverso, o raciocínio lógico representa um demônio para mim, e qualquer obstáculo numeral me faz tremer as pernas. Esse lado, o da razão e objetividade, parece-me um campo frio, apático, e meu instinto natural é fugir dele. Respeito esse lado como o faz um nobre pensador, que não cogita aniquilar um rival ideológico. Ímpetos democráticos me levam a respeitar as exatas, por vezes demasiado. Em certos momentos esse demônio imponente surge descomunal em minha frente, e me sinto inferiorizado. Peno bastante até, cedo ou tarde, em minha alma, irromper discreta a chama da subjetividade.
Sem a lógica a humanidade se precipitaria no turbulento e intempestivo oceano da insanidade, e isso eu confirmo com propriedade e convicção. Seria como é descrito em uma determinada obra de Machado de Assis, o nosso deus brasileiro. Foi o que sucedera comigo, anos atrás.
Só os que outrora enlouqueceram e, em seguida, salvaram-se dessa condição, sabem do que se trata. É como um divisor de águas na vida de uma pessoa. Imagino que um pouco de lógica me livraria dessa enfermidade, ou infortúnio. Minha fértil imaginação, somada ao uso da cannabis sativa, carregou-me para os confins dos confins. Privá-los-ei de minúcias.
Dois seres blasfemos me induziam ao satanismo. Entidades espirituais disputavam os rumos do universo em todos os seus planos. A cúpula judaica se organizava em aliança com a católica. O deus abraâmico lacrimejava. O xamanismo ostentava todo o seu poder, assim como o rastafarianismo também. Antigos e extintos impérios no plano físico operavam grandes projetos neste outro plano. Os imperadores japoneses, deuses até a Segunda Guerra Mundial, prosperavam.
Quando curado de tal maldição, é absolutamente presumível o meu temor de voltar às garras de tamanha insânia. Com que pavor sentia ao recordar de minhas ideações da época, quando, atormentado, cogitei tirar a própria vida. No entanto, há algo de que sinto falta naquele maldito período. Trata-se da sensação de ter decifrado os mistérios divinos e existenciais que nos acompanham durante a vida. Hoje sei que se tratava de uma homérica ilusão, e, após voltar à realidade, almejo a verdade mais do que nunca. Garanto-lhes: a vida é bela.
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