Ivan presenciava um crepúsculo inebriante naquele fim de tarde na praia. O efeito aurífero e majestoso que o sol, na iminência de sumir, produzia na imensa e atípica névoa que subia do mar naquele momento, era ignorado pelo rapaz.
Perto dele estava o balde de um pescador, que continha em seu interior um solitário e agonizante peixe. O momento derradeiro de seu suspiro final se aproximava em sincronia com o movimento dos astros, o qual representava a transitoriedade do anoitecer.
Essas transições, esses visuais supremos não mudavam a direção de seus olhos: seu celular o dominava. Naquele instante, em específico, Ivan monitorava a rede social de sua namorada, cujo nome era Elza.
Porém não era o amor em toda sua inefabilidade que tomava as rédeas dos globos oculares do jovem, mas sim pensamentos luxuriosos e ambiciosos. Elza acabara de, em uma única empresa, operar seu nariz e os seios. Um grandioso investimento, financiado por seu pai. A operação fora bem sucedida, embelezando a menina e conquistando numerosos novos seguidores nas suas redes sociais.
Era a mais recente publicação da menina e sua repercussão exponencial que faziam de Ivan um exímio ignorante. Não se distrairia nem se arcanjo Miguel, surgisse dos céus com sua legião angelical, para defender o sagrado, o divino, o inviolável. Também não perceberia Lúcifer ascendendo dos confins da terra, em sublime euforia, para provocar uma revolução nas leis universais que regem o plano espiritual, e, com efeito, o mundo físico também.
Até que duas joviais garotas passaram, caminhando graciosamente sobre a areia e o mar, em seus eternos beijos secos e molhados. Ivan as fitara. O sol, conformado partia, assim como o peixe. Na treva, o rapaz acendia seu cigarro, e ia embora. Coitado, pobre Ivan. Não era ciente de seu futuro nebuloso, onde a treva não partiria na manhã seguinte.
Foi pelo mesmo celular o qual tornava Ivan ignorante que ele recebera a fatídica mensagem de Elza. O relacionamento havia sucumbido.
Ivan, navegante do imenso navio da superficialidade, assim como outros bilhões, não sabia decodificar seus sentimentos. Iria descobrir tragicamente o valor da poesia e das artes. Subitamente o frágil navio naufragava no oceano da alma, da profundidade, das ocultas leis universais. E que, por todos os santos, seja esse o destino.
Ivan perdera a sanidade. Pobre Ivan, não conhecia o gigante que habitava o seu ser. Em meio à euforia da cocaína e a sedação da maconha, recorreu às bruxarias. Pesquisas na deep web, onde coisas absurdas podem ser encontradas, renderam tutoriais macabros para o jovem.
Insano, confuso, seguindo falsos estímulos, Ivan utilizou um ritual que, pelo que dizem, fora elaborado por uma feiticeira carioca do século XVII. O ritual era de indizível maldade, e envolvia elementos da crença portuguesa, indígena e africana. Ele explorava, o máximo que podia, a energia da morte e do sacrifício. Isso é o que deve ser dito sobre o ritual, todo o resto seria de extrema baixeza expor aos outros filhos de Deus.
Quem pode garantir que soluciona o mistério divino e as leis universais? Ninguém, nem mesmo o pontífice. E Ivan? Ivan não tinha um pingo de controle sobre o que fazia. Pode-se dizer que a suprema energia do seu sentimento, tal qual foi a energia de Cristo na Cruz, tal qual foi a de Satã quando expulso do céu, fora o combustível do que sucederia.
O destino é mesmo impactante, e com toda certeza regido pelas ocultas leis universais, as quais talvez conheceremos quando sepultados. Elza, pobre Elza, que comemorava, com seu nariz e seios novos, a repercussão que vinha obtendo nas redes sociais, encontrava-se naquele momento no Rio de Janeiro. Estava na mesma região que vivera uma poderosa feiticeira do século XVII.
Ivan, quando concluía o macabro e satânico ritual, misteriosamente vinha recuperando a sanidade. Envergonhava-se de todo o aparato daquela cerimônia, mas sentia-se mais vivo. A vida dele recuperava, de alguma forma, o sentido. Era como se sua alma tornava-se mais forte.
Ao passo que Elza mexia em seu celular em um quarto de hotel. O quarto estava meio escuro, fracamente iluminado pelo computador e o celular da garota. De súbito, linhas diáfanas surgiram no canto do aposento, e se ondulavam e se movimentavam. Era um espírito. Mas Elza não se importou com isso, estava crente de que tratava-se de um cisco em seu olho, e continuava mexendo em seu celular.
Sucedido isso, uma fortíssimo clarão surgiu no quarto, e, sem qualquer barulho, a menina desaparecia. O que acontecia nesse lapso de tempo, talvez saberemos quando sepultados.
O fato é que em seguida um clarão surgiu numa praça pública do Rio de Janeiro. Surgia ali Elza, com o coração palpitando vorazmente, meio que se esquecendo de respirar, olhando para todos os lados. O cenário deixaria a menina sem ar mais um tempo.
Uma mulher, presa à madeira e com as pernas cobertas de palha, era incendiada. A multidão, com vestimentas nunca antes vistas por Elza, comemorava. Não havia prédios, carros, nem celulares. Ela estava no século XVII.
Que grande acontecimento desviaria a atenção de uma multidão enraivecida assistindo a execução de uma satânica bruxa?
Um clarão silencioso iluminava a praça, a alma da bruxa descolava do corpo, enquanto a poucos metros o de Elza aos poucos se materializava. A alva menina usava um roupão branco, e uma toalha azul cobria seus cabelos negros, pois tinha saído de um banho.
A multidão, fidalgos, populares, escravos negros, índios, enfim, todos viam a cena perplexos. Até que um padre ajoelhou-se trêmulo no chão e berrou:
- É a Virgem Maria!!! Piedade!
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