De antemão, quero dizer que esse texto é um artigo de opinião. Não pensem que trata-se de cunho publicitário. Venho aqui argumentar sobre o valor dos “escritores invisíveis”, desconhecidos, desvalorizados, desprezados e mais vários outros “des”. É claro que eu sou um deles, é evidente que sou pouco lido e que sonho em crescer nesse mundo. Mas essa não é uma tentativa desesperada de angariar novos leitores.
Essa reflexão que venho compartilhar iniciou-se há um ou dois anos, quando, em uma noite comum, meu pai me ligou convidando para o lançamento de um livro. Naquele momento eu já era um “escritor invisível”, já tinha concluído o curso de Jornalismo e tinha alguns textos guardados. O convite veio a calhar, pois eu estava “parado”, ou seja, não estava escrevendo, e isso foi uma faísca para eu voltar à ativa.
Meu pai me buscou de carro aqui no Córrego Grande, subimos o Morro da Lagoa e pegamos a Avenida das Rendeiras. Um percurso difícil de enjoar, tendo em vista o visual exuberante da Lagoa da Conceição. No caminho, meu pai explicou que o livro fora escrito por um ex-vizinho seu, um jovem que portava um certo grau de esquizofrenia. Por um lapso de alguns segundos, tive a arrogância de questionar-me sobre o potencial literário de uma pessoa portadora de uma doença mental, ignorando que também sou uma. Mas esse rompante logo findou, e eu comecei a vislumbrar a possibilidade de conhecer uma obra e um artista interessantes.
O lançamento era no fim da Avenida das Rendeiras, em um certo bar alternativo que não existe mais. Não lembro exatamente se havia lá estátuas do Buda ou mandalas, mas a vibe do lugar era essa, e imagino que você entenda o que estou dizendo. O cheiro de incenso eu posso confirmar que havia. No local estavam umas 30 pessoas, e o jovem escritor estava acomodado em uma mesa, autografando os livros e recepcionando os leitores ao lado de sua mãe orgulhosa.
Não percebi nada de diferente no rapaz, mas notando o seu comportamento e levando em conta as descrições dele feitas pelo meu pai, comecei a criar curiosidade pelo conteúdo do livro. Eu nem conhecia ele e fiquei interessado em saber o que ele tem para dizer, as características de sua escrita e seu estilo literário. Então peguei o livro que meu pai comprou dele, me acomodei em uma poltrona e comecei a ler. Estava saciando a curiosidade e prestigiando o colega ao mesmo tempo. Ali eu li umas 20 páginas e fiquei impressionado com uma escrita sofisticada e um vocabulário rico. Eu não levei o livro para casa, mas foram 20 páginas prazerosas e que valeram a pena. Foi interessante entender um pouco da subjetividade de um rapaz que havia recém-conhecido. Imagine se fosse um grande amigo, familiar ou outra pessoa com quem eu convivi bastante!
Essa experiência me motivou a voltar a escrever, e assim o fiz durante algum tempo, mas logo o desânimo tomou conta. Desde então, a chama da produção literária veio e foi embora repetidas vezes.
Venho notando que há textos cuja inspiração o escritor sentiu há muito tempo, mas só após anos ele põe no papel (ou na tela). Esse é o caso. Há anos, refleti sobre como é legal ler um material escrito por um conhecido.
A reflexão veio à tona hoje novamente.
Essa tarde fiz uma caminhada até a paróquia mais próxima da minha casa e aproveitei para me confessar pela segunda vez em minha vida. A primeira tinha sido há uns 7 anos. Eu conhecia de vista o padre que me ouviu, pois já tinha assistido a duas missas celebradas por ele. Trata-se de um sujeito sério, quieto e simples.
Já era noite quando, mexendo no Instagram, apareceu uma postagem do padre fazendo propaganda de um livro seu. Despertou então em mim a mesma curiosidade que tive no lançamento do livro do rapaz: precisava saber qual é a do padre! Através do Kindle, baixei o livro pela Amazon e comecei a ler hoje mesmo! E, já nas primeiras páginas, estou impressionado com a fé, a simplicidade e a nobreza de espírito do religioso. Não sei se lerei o livro todo, afinal, é difícil eu completar um livro, mas ler algumas páginas de um livro de um conhecido me fascinou pela segunda vez!
Essas duas experiências fantásticas me motivam a continuar escrevendo, e espero que essa reflexão incentive mais pessoas. Por um certo momento, um “escritor invisível” roubou a cena de Honoré de Balzac e José de Alencar, cujas obras ocupam o meu criado-mudo.
Só assim a literatura se renovará!
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