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Dilemas das ruas

João estava livre naquela tarde de terça-feira e, como de praxe, pegou seu ônibus e saiu do Ribeirão da Ilha em direção ao Centro. Desceu no terminal e foi caminhando sem rumo. Só sabia que, em algum momento da tarde, gostaria de participar de uma missa. Esfomeado, decidiu comer um pastel no Mercado Público. Vislumbrou a possibilidade de comer na parte de fora do estabelecimento, mas ele lembrou dos chatos pedintes e moradores de rua, então resolveu comer na parte de dentro do mercado.


O rapaz tinha seus 32 anos e já tivera problemas graves com moradores de rua. Quase perdera a vida assim. Por isso, tinha uma certa paranoia com isso.


Finalizado o pastel, foi caminhando em direção à parte de baixo da praça XV. Até ali, apenas dois pedintes o incomodaram, o que lhe custou a quantia de dois cigarros. 


  • Tá aqui, parceiro.


“A vantagem de fumar é que você se livra dos mendigos mais rápido”, pensava João. 


Ali em frente, havia um espaço aberto, perfeito para os indígenas, que, em um grupo de seis ou sete, cantavam, tocavam flauta, tambores e outros instrumentos. João ficou maravilhado e curtia cada nota da apresentação, até que se aproximaram uns 3 sujeitos suspeitos. Fumavam cigarros de cravo e ostentavam cordões de (aparentemente) prata e ouro. A vestimenta era característica dos traficantes e dos faccionados. Escondiam-se atrás dos óculos escuros e bonés e estavam sérios, compenetrados, com uma postura e movimentos lentos, mas certeiros. Um era negro retinto, outro era pardo e, o último, tinha traços indígenas. Aos olhos de João, o trio parecia estar sob efeito da maconha. Essa foi a deixa para que o nosso protagonista finalizasse o vídeo que gravava e guardasse o celular no bolso, de uma forma que não ofendesse os rapazes. “Não dá mais para bobear no centro”, pensou.


A próxima etapa do percurso desnorteado seria subir a Praça XV por dentro e descansar à sombra da bela figueira. Já no início, nos primeiros bancos do interior da praça, nosso personagem sentiu um forte aroma da maconha. Um frio tomou conta de sua barriga, e o ódio, tal qual nuvens negras pelo céu, tomou conta da alma do rapaz. Apesar de defender a regulamentação dessa droga, ele tinha um problema com ela: seu primo havia desenvolvido esquizofrenia devido ao consumo dela. De fato, o cheiro de maconha é muito forte e mexe com o coração das pessoas. “O mundo seria melhor se os maconheiros se dessem conta disso”, disse consigo João.


O rapaz, incomodado, notaria mais outro grupo fumando erva no centro da praça, onde fica a Figueira. Mas o vento sul começava a limpar o céu. Mais sereno, pensou: ”Tá tudo mudado” e seguiu seu caminho. O número alto de moradores de rua fez nosso rapaz caminhar mais rapidamente, evitando pegar o celular ou demonstrar vulnerabilidade. Mesmo assim, um pedinte abordou, e lá se foi mais um cigarro para os pedintes.


Já na parte de cima da praça, finalmente defronte à Catedral, ele lembrou que os três cigarros fariam falta mais tarde. Aproveitou, então, para entrar na banca de jornal. Olhou e notou que as manchetes mais importantes ele já tinha lido no celular. É uma pena. Pediu um maço de cigarro no balcão e aproveitou o momento para olhar as revistas. Uma delas, cujos donos são banqueiros, dizia: O que será de um país comandado por um fascista? “O mundo tá mudado mesmo”, pensou rindo.


A Praça XV e a Catedral Metropolitana de Florianópolis são um local deveras simplório e caricatural. Ali, é visível que a cidade possui uma história. Essa igreja foi inaugurada em 1773, antes do século XIX, ou seja, na época em que o Brasil ainda era colônia de Portugal. Nessa região, o tempo parece passar em outra velocidade. De fato, desde a Revolução Industrial, a vida vem se acelerando demasiado. 


Visitar esses lugares dá um pingo de noção de como era a vida na época e faz os transeuntes sentirem saudade do que não viveram.


Nessa parte, também está o Palácio Cruz e Souza, antigo palácio do governo do estado, que hoje se tornou o Museu Histórico de Santa Catarina, levando o nome do fantástico poeta negro. 


A leitura de Cruz e Souza é essencial para os que amam literatura, história, a cidade e que são antirracistas. Até mesmo quem não gosta de poesia vai se encantar pela obra do autor.  São poesias influenciadas pelo Simbolismo do parisiense Charles Baudelaire, onde podemos notar elementos de Satanismo e Individualismo.


Imagine a decepção dos fãs ao notarem que haviam retirado a imensa arte do rosto do poeta que tomava a parede de um prédio ao lado!


Ainda na escadaria da Catedral, formava-se uma enorme fila de moradores de rua, para o que parecia ser uma ação social. Mas aqueles não aparentavam estar interessados em incomodar João, demonstraram apenas querer comer seus pães de cada dia. Depois de passar pela fila, virou a rua, e só então acendeu um cigarro, para evitar perder mais um. Entrou na secretaria da igreja e lá descobriu que naquele dia não celebrariam mais missa na Catedral, mas que haveria uma celebração na Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a dos pretos.


A Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito foi construída por pessoas escravizadas e ex-escravizadas, para depois ser frequentada especialmente por eles: retratando a triste segregação racial da época.


João, branco e de classe média, ficou feliz, pois era uma oportunidade de sentir a espiritualidade católica e afro de forma simultânea. “Isso delimita muita coisa”, pensava. Quando ele chegou, já estava na parte da homilia. O padre, careca, barbudo e meio gordo transmitia seriedade e amorosidade ao público, do qual metade eram negros. O sacerdote, em alto e bom tom, citou Atos dos Apóstolos, Capítulo 10, Versículo 4:


  • Olhando bem para ele e cheio de medo, Cornélio então perguntou: “O que é, Senhor?” O anjo respondeu: “Suas orações e esmolas subiram como memorial diante de Deus.


A partir daí o padre negro começou a discorrer sobre a esmola de forma hábil e sagaz, inteligente e compassiva. E isso tocava o coração de João. 


  • É uma das melhores homilias que eu já vi. 


Após a benção final, ele ficou um tempo boquiaberto, refletindo sobre o evangelho e seus ensinamentos: “Os pobres merecem compaixão e caridade!”


Poucos segundos depois, descendo as escadas, ainda no espaço da igreja, um mendigo negro abordou o rapaz. Esboçou um choro e mil e um motivos para receber uma esmola. João pensou estupefato: seria isso um sinal de Deus? Ou, pelo contrário, o morador de rua apenas queria se drogar? Teria o mendigo a satânica audácia de explorar a fé alheia para conseguir mais uma dose da droga?


As mãos de João tremiam, mas não de medo, da aflição de saber que, talvez, estivesse sendo ludibriado. Só tinha 20 reais no bolso, o que ele sabia que era uma boa quantia para um morador de rua, mas a homilia do padre mexera com o espírito do nosso protagonista. “É preciso ter fé na humanidade” lembrou, enquanto enfiava a mão no bolso. Os olhos do morador de rua brilharam.


O pedinte recebeu a esmola, exultou de alegria e abençoou o doador. João nunca mais iria esquecer daquele momento que, parado e perplexo, observava o homem virar-lhe as costas e caminhar rapidamente, quase correndo, mas, por vezes, mancando, tremulando sua roupa esburacada e mofada, até desaparecer na multidão.

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