Esta crônica que você está começando a ler apresenta origens diversas. É porque quando eu decido escrever, seja um conto ou uma crônica, um artigo de opinião ou reportagem, eu o faço movido por intensa atividade criativa cerebral. Em outras palavras, vem-me à mente uma ideia digna de ser registrada e eu corro para meu tablet a discorrer o que se passa em minha cabeça. Dessa vez não foi assim. Eu planejo escrever um conto sobre o litoral catarinense na Era dos Descobrimentos. Para tanto, comprei um livro de História chamado “Porto dos Patos”, que trata sobre a Ilha de Santa Catarina nesse período específico. Esse livro se mostrou muito interessante para mim. É um material muito técnico, afastado da linguagem literária que tanto admiro. Posto isso, constato que demorarei a concluí-lo, pois sou desses, quando se trata de linguagem técnica e acadêmica.
O que seria de mim sem a prática da escrita por tanto tempo? Ademais, quantas expectativas girariam em torno desse conto, configurando forte fardo para as minhas costas? E assim, nessa costumeira noite de verão, estou forçando-me a escrever de quaisquer formas. Todavia, espere um instante, leitor contundente! Talvez haja sim uma atividade criativa cerebral. Enganei-me! Acabo de ler uma marcante crônica escrita por Machado de Assis. Existe fonte criativa mais poderosa? Os fãs do José de Alencar diriam que sim, mas eu prefiro me abster de tamanho posicionamento, deveras importante no vasto e rico manancial da literatura. Ainda engatinho nesse mundo e, devido ao ritmo lento de minha leitura, assim será por um bom tempo.
A crônica que acabo de ler se chama “Direito dos Burros”, e é no ritmo e na energia cósmica dela que estou escrevendo. Seria uma honra para mim que algum leitor conferisse essa obra e constatasse algum pingo de sentido no que acabei de falar. Já pensou? Eu escrevendo na onda do mestre? Pois bem, chega de divagações! O assunto é a crônica. Vou compartilhar-lhes os dois primeiros parágrafos dela, para vocês entenderem como está meu estado mental:
“Ontem de manhã, indo ao jardim, como de costume, achei lá um burro. Não leram mal, não, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho Rosas no Jardim, Rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as delícias da vida, porque eu não consinto que as cortem do pé. Hão de morrer onde nasceram.
Vendo o burro naquele lugar, lembrei-me de Lucius, ou Lucius da Tessália, que, só com mastigar algumas Rosas, passou outra vez de burro a gente. Estremeci, e - confesso minha ingratidão - foi menos pela perda das rosas, que pelo terror do prodígio. Hipócrita, como me cumpria ser, saudei o burro com grandes reverências, e chamei-lhe Lucius. Ele abanou as orelhas, e retorquiu:
- Não me chamo Lucius.”
Sim, leitor contundente. Nela, nosso saudoso escritor relata um interessantíssimo diálogo com um burro! Dá vontade de conferir a continuação, não é?! Pois bem, adquira uma coletânea de crônicas dele e seja feliz! Feliz você verá como o burro apresenta uma certa inclinação trabalhista, defendendo os direitos de sua classe contra os maus tratos dos diabólicos cocheiros! E, indo mais longe, até onde essa inclinação se manifesta na alma de Machado de Assis? Bom, eu poderia fazer um sério estudo a partir de materiais acadêmicos e defender uma grandiosa tese, tudo vindouro de uma estupefaciente conversa com um burro! Mas como ficaria meu conto sobre a Era dos Descobrimentos? Iria para o espaço! Por ora, vou conter-me e cuidar-me, afinal, a lógica do meu cérebro não é das melhores.
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