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Como um samba começa

Neco vestiu um de seus chapéus panamá, pegou na mão de sua mulher, e desceu para a garagem. Em seguida ligou seu carro e foi para o norte da ilha. Era mais um domingo de samba. O dia, chuvoso e um pouco frio, atrapalhava a realização da festa, mas mesmo nestas condições o rancho de pesca lota de fãs do samba de raiz.

Durante o percurso até a Ponta do Sambaqui, o músico papeava assuntos leves sem qualquer ansiedade pelo trabalho que estava para realizar. Ainda assim, parecia não estar disposto a uma conversa longa ou mais séria, como uma entrevista. No único momento que comentou sobre a festa, explicou que independente de sua presença, os funcionários, músicos, frequentadores e o pescador local sabiam o que fazer para o evento começar. Ou seja, o samba acontece sozinho, sem necessariamente um patrão ordenando toda hora o que funcionários devem fazer. Chegando ao estacionamento, cumprimentou o criador de ostras, que não fazia nada mas assumia uma postura de monitoramento. Depois foi entrando no barraco enquanto alguns conhecidos recepcionavam-no.

A estrutura é uma pequena casa de madeira, toda pintada de azul. A primeira de uma sequência de outras cinco, quase idênticas, situadas na beira do mar. Todas são utilizadas para pesca e a criação de ostras, e os materiais deste tipo de atividade ficam expostos durante o dia pela areia da praia e dentro dos barracos. Isso é um elemento fundamental para compreender o que difere o Rancho do Neco da maior parte dos bares e casas noturnas.

O público é muito variado. Sempre estão ali universitários, alguns moradores do bairro, os “coroas” (pessoal da meia-idade), sambistas que já se reuniam há décadas atrás, turistas brasileiros e estrangeiros. Na primeira parte da festa, quando não está acontecendo um show, e sim uma roda de samba com participação de quem quiser, aparecem até idosos e crianças. Alguns freqüentam religiosamente todas as semanas, como algo essencial para arejar a mente na véspera das segundas-feiras. O que todos têm em comum é uma paz de espírito e felicidade serena expressa no rosto.

A roda de samba inicial já acontecia com participação de quem quisesse, exceto Reizinho no violão, o único que toca a trabalho nessa parte. Aos 60 anos de idade, recebe R$ 300 semanais do rancho, o local que ele possui emprego fixo. Um gaúcho baixinho, gordo e descendente de índios, esta é uma das figuras icônicas do local. Quando não está com o violão debaixo dos braços, costuma contar inúmeras histórias de vida e reclamar do dinheiro que recebe, pois nunca consegue pagar o aluguel. Apesar de eventualmente criar pequenas confusões e faltar festas, é considerado pelos músicos um violonista de alto nível.

Outro personagem marcante é o garçom apelidado de Chaplin, idêntico ao clássico humorista Charles Chaplin. Atrás do balcão, ele recebe as fichas dos clientes e entrega-lhes bebidas ou salgados. Às vezes, para agradar algumas clientes em um misto de tranqüilidade e seriedade, dobra e enrola um guardanapo em volta da lata de cerveja e as passa. Quando o horário está em torno das 22 horas, o movimento no bar chega ao ápice, e é quando o balconista fica atiçado. Bate boca com quem o atrapalhar, abraça os seus colegas, dança, pula, berra, empurra quem estiver na frente. Algumas vezes vestido de terno, igual ao comediante, outras com uma camisa do Avaí, ele leva muito a sério a sua função e demonstra extremo carinho pelo rancho.

Os músicos contratados já haviam subido no pequeno palco (apenas um degrau acima do piso) e iniciado o show enquanto todos dançavam animados, uns em pares, outros sozinhos. Noel Rosa, Vinícius de Moraes e Adoniran Barbosa são alguns nomes que indicam o estilo e proposta do repertório. A cada vez que Neco aparecia, estava realizando uma atividade diferente: trouxe mais gelo para a cerveja, cantou músicas, curtia com sua mulher, apresentava e convidada conhecidos para cantar, pedia que não fumassem maconha na areia da praia.

Quando a festa chegava perto da meia-noite, músicas mais tranquilas eram escolhidas, como a “Carinhoso” produzida pelo renomado compositor carioca Pixinguinha. De fato, assim as 150 a 200 pessoas que sempre lotam o barraco diminuem os ânimos exaltados no ápice da festa. Soa como uma forma elegante de despedida do público, enquanto a segunda-feira se aproxima.

Durante a noite Neco realizava participações que lembram a perfomance de um apresentador de TV, contextualizando determinadas músicas e apresentando os músicos. Em meio aos lamentos de todos, ele anunciava neste estilo a famosa saideira: o “Rancho de Amor à Ilha”. Já sem o som dos instrumentos, só se ouvia o coro de todos, que formavam diversos trensinhos pelos cantos. Chaplin entoava saltitante o canto e venerava tudo à sua volta, sem se preocupar com as cervejas. Nesse clima terminava mais um domingo de samba na ponta do Sambaqui.

Noite de festa no rancho não é momento bom de conversar com aquele músico baixinho e levemente corcunda, que tanto se dedica para a cena do samba de raíz em Florianópolis. Tendo saído todas as pessoas, que satisfeitas bebíam as últimas cervejas na rua, o forte e gorducho segurança vigiava a porta enquanto Neco contava atenciosamente o dinheiro arrecadado. Então o silêncio de cansaço dos funcionários toma lugar no barraco de madeira, contrastado apenas com a voz grossa e rouca de fumante do Reizinho, que contava consternado que sofrera um assalto em sua casa e reclamava do dinheiro que vem recebendo. Lourenço, o pescador, recolhia rapidamente as latinhas pelo chão e preparava o espaço para o resto da semana, ou seja, para a criação de ostras.

Uma janta no apartamento da família de Orlando Carlos da Silveira Mello (Neco) é uma oportunidade muito melhor para conversar sobre a história do rancho. Menos agitado, saboreando uma pizza com coca-cola, contou como tudo começou, em 2002. No início deste ano comprou o rancho junto com um pescador local, Lourenço, um homem pequeno e magrinho que possui um sotaque extremamente mané, daqueles difíceis de entender. Até então a ideia dos dois com aquela compra era cultivar camarão, e no primeiro domingo que passou muitos amigos deles ajudaram a reformar o barraco, resultando em uma estrutura voltada para isto.

Nos primeiros seis meses de atividade, os resultados da pesca foram muito abaixo do esperado. Frustrados, Lourenço e Orlando resolveram então tentar um plano B: a criação de ostras. Participaram de cursos sobre este tipo de molusco na Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) e na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e compraram plantações de ostras próximas já em cultivo. Era mais uma tentativa.

Como forma de promover as primeiras vendas, eis que Neco realizou no primeiro domingo de junho de 2003 um almoço regado a ostras e outros frutos do mar. Cerca de 200 pessoas compareceram, em maior parte de um grupo que já se encontrava no tradicional Bar do Tião, situado no bairro Monte Verde e conhecido por receber shows de Samba de Raíz. Sendo assim, formou-se uma roda de samba naquela tarde, daquelas que são feitas de brincadeira entre amigos, sem o comprometimento de um show ou algo previamente marcado.

É de se imaginar que com o sucesso deste almoço, viriam outros. Nesta época as safras de ostra não eram de brilhar os olhos, mas ainda assim vendiam razoavelmente bem e rendiam muito mais que as de camarão. Lourenço e Neco escolhiam pontos estratégicos da cidade, onde paravam o carro com caixas de ostras, armavam uma placa com os contatos estampados, e aguardavam novos clientes. Durante esse processo de conquista de freguesia, os almoços, sempre bem movimentados, começaram a acontecer nos primeiros domingos de cada mês. Nestes encontros não eram cobrados ingressos, e quem quisesse podia levar bebida e comida além da que era vendida

A cada fatia de pizza novos detalhes eram acrescentados e o sucesso do rancho fazia mais sentido. Assim como nas saudosas malocas do século passado, o batuque acontecia naturalmente como forma de diversão, e não como festas divulgadas a fim de obter lucro. O grupo de sambistas, satisfeitos com os encontros, decidiram então criar um bloco para o carnaval de 2004.

Para organizar os integrantes e juntar ideias, em novembro esses almoços passaram a acontecer duas vezes por mês. Após a virada do ano, com a empolgação de todos, eles passaram a se encontrar na ponta do Sambaqui todos os domingos para preparar o bloco “Marcha Rancho”. A criatividade rendeu bons frutos, e no carnaval passava pelas ruas da cidade um barco rebocado por uma caminhonete, com tripulantes cantando as marchinhas de carnaval.

A principal preocupação de Neco com o barraco foi deixando de ser as ostras e tornou-se o samba. Além disso, muitos desconhecidos apareciam nos domingos pela música, e não pelo almoço. Sendo assim, desde 2005 os eventos semanais no rancho são apenas as festas, que começam aos fins de tarde. Em mais de uma década de existência, aquela pequena casinha de madeira nunca esteve vazia em domingos de samba, exceto quando o evento foi interditado devido a reclamações de barulho e excesso de carros pela vizinhança.

Como filho do idealizador de tudo isto, é inevitável sentir nostalgia profunda a cada detalhe escrito. Vivi isso tudo de uma perspectiva diferente. Quando o samba rolava, eu, ainda criança, estava jogando futebol num campinho próximo, nadando ou pescando na baía em frente e, por vezes, participava das rodas com um chocalho ou tambor. O mais frutífero dessa história é que, em tempos de música eletrônica e dos vídeo games, aprendi a dar valor ao Samba de Raiz e a brincar com uma pipa no céu.

Sem show de luzes nem drinks especiais, o Rancho do Neco é uma prova de que é possível investir em um negócio culturalmente rico. O que faria pessoas de tão diferentes classes e origens sentirem-se tão à vontade neste barraco? As melodias do Samba quebrando a monotonia de uma noite de domingo, a baía em frente, os funcionários icônicos e a simplicidade são alguns dos elementos que vêm à mente.

Após tanta dedicação, Neco vendeu neste ano o estabelecimento para Luiz Sebastião, renomado com o violão de sete cordas que se apresenta todas as semanas no rancho. Cabe ao novo dono a meta de continuar satisfazendo um público fiel, que gosta de começar as semanas com o pé direito e com o samba no pé. Para isso, um ditado vem a calhar: Em time que está ganhando não se mexe.

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