Caminhando despreocupado pelas ruas do centro, não tinha compromissos para o resto da tarde. Pensava na maneira mais eficaz de aproveitar aquele tempo. Foi quando tive uma ótima ideia e fui buscar uma leitura tranquila e que não cansasse muito minha cabeça. Com apenas R$ 5 no bolso, logo veio a frustração. A publicação mais barata do Batman custava R$ 8,20, a de faroeste R$ 8,30 e o mangá R$ 11,50.
Estas estantes das bancas estão mudando de cara nos últimos anos. O mercado de história em quadrinhos, voltado principalmente para o público nerd e otaku, está em um processo de elitização. Ao passo que há 15 anos as edições quinzenais ou mensais de baixo custo eram as opções mais requisitadas nas revistarias, atualmente coletâneas e encadernados de luxo vêm conquistado mais espaço.
Gilberto Coelho, funcionário e filho do dono da Joreli Revistas, livros e jornais, confirma essas mudanças. Para ele, é perceptível que nos últimos anos as editoras vêm investindo cada vez mais em encadernados em todos os segmentos dos quadrinhos. Muitos leitores que já não acompanham regularmente as edições mensais, optam pelas coletâneas.
Ao mesmo tempo em que me decepcionei pelo preço das publicações, fiquei contente em ver o movimento na banca. Em uma hora conversando com os funcionários e analisando as revistas, foram cinco pessoas folheando os quadrinhos. Enquanto os jogos de videogame, filmes e seriados ganham grandes produções na área do entretenimento, imaginava que o interesse do público pela nona arte diminuiria. Porém não é isso que está acontecendo, mas sim alterações tanto na qualidade quanto no preço das publicações.
Um suco de laranja e um empanado de frango na lanchonete ao lado pareceram-me mais atrativos para o momento. Olhando para a televisão sem prestar atenção, comecei a refletir sobre o perfil dos leitores de quadrinhos. Conheci diversos tanto na vida real quanto em redes sociais, e todos são dotados de uma imaginação e criatividade impressionantes. O vocabulário, as piadas e os comentários ditos por esses colegas seriam taxados de loucura por muitas pessoas normais, mas sempre fizeram total sentido entre nós. Então eu refleti: superando a ideia imbecil de que a nona arte é coisa do público infanto-juvenil, que tipo de conhecimento os leitores assíduos dos quadrinhos adquirem?
Um desses conhecidos é Alexandre Linck, graduado em Cinema e mestre em Ciências da Linguagem na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e doutor em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc). Em sua tese intitulada “A invenção dos quadrinhos”, defende que esse processo de “despopularização” da arte sequencial já ocorre em um contexto maior, desde os anos 1960. Os motivos são vários, mas um dos principais foi uma campanha mundial contra os quadrinhos feita nos anos 1950 em países como Brasil, Japão, Estados Unidos, Inglaterra, França, Austrália, etc. Além disso, o aparecimento da TV, a conquista do espaço nas livrarias e a busca pela legitimidade artística das HQs também influenciaram.
Contra o que os governos destes países estariam combatendo com estas campanhas? Que risco uma simples história em quadrinhos de super-herói apresenta para a sociedade? Nessa parte eu estava com metade do empanado na mão e minha cabeça em outro planeta. Ao meu redor clientes e funcionários da lanchonete discutiam sobre a partida entre o Avaí e Figueirense e também sobre inverno que vinha chegando.
Outro fã de quadrinhos com quem conversei é Rock Barcellos, formado em Desenho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente está desenhando quadrinhos nacionais e freelances diversos. Rock também reconhece essas mudanças:
– O que noto é a invasão dos encadernados de luxo. Nas mensais, vejo sempre alguma referência aos filmes das editoras e um aumento considerável nos preços.
De fato essas mudanças estão acontecendo. A edição mensal do Tex, o mais famoso personagem de faroeste dos quadrinhos, custava R$ 4,90 dez anos atrás. Hoje a mesma custa R$ 8,30. Dentro desse processo de elitização, a Mythos editora, que publica esta revista e todo o material feito pela marca italiana Bonelli Comics, lançou a série Tex Colorido em outubro de 2009 por R$ 24,90. Hoje o mesmo encadernado está custando R$ 34,90. Nesse meio tempo, a editora lançou uma série ainda mais luxuosa, intitulada Tex Gigante a Cores, que custa R$ 59,90 cada exemplar.
Com as publicações de super-heróis acontece o mesmo. A edição regular do Superman custava R$ 6,90 em 2008, o que já não era um preço tão popular assim. Hoje ela custa R$ 9,50. Nessa mesma onda, a editora Panini vem criando novas coletâneas para saciar o público. Uma dentre tantas que se pode encontrar nas bancas é a Capitão América Deluxe: O soldado invernal, que vale R$ 75.
Os quadrinhos de público adulto também têm suas edições elitizadas nas estantes. O Sandman, governante do mundo dos sonhos, tem sua série definitiva que custa R$ 145. Toda a saga de Watchmen, o grupo de heróis que ficou famoso no cinema, está reunida em uma edição definitiva, por R$ 110.
Por último, analisei os exemplares japoneses, chamados de mangá. As edições mais baratas dos dois mais populares títulos, One Piece e Dragon Ball, estão custando R$ 11,50. Um dos funcionários da revistaria retirou do encalhe um exemplar de dez anos atrás do mangá Love Hina. Na época, a edição valia R$ 3,50. Hoje um encadernado reúne o que antigamente seriam duas revistas por R$ 14,50.
Finalizado meu empanado de frango e minha viagem para Júpiter, resolvi ir para Marte e comecei a refletir sobre outros aspectos dessa pesquisa. Ora, com tantos lançamentos, tudo me leva a crer que os leitores e a produção da nona arte não estão em extinção, pelo contrário. Estariam as grandes produções de jogos, seriados e filmes contribuindo para o crescimento do mercado de quadrinhos, ao invés de destruí-lo? Um filme elogiado pelos críticos como Batman. The Dark Knight me parece mais uma mega propaganda do que concorrência para as revistas.
Viajando um pouco mais longe no tempo, essas mudanças no mercado de quadrinhos ficam ainda mais evidentes. Até o fim dos anos 1990 os cantos das revistarias destinados à nona arte eram tomados por publicações conhecidas pelo “formatinho” que tinham baixo custo e alta tiragem. Com mesmo tamanho das revistas da Turma da Mônica (12 x 21cm), títulos como Heróis da TV, Superaventuras Marvel, X-Men e Thor valiam em torno de R$ 2 e faziam a cabeça do público nerd. Apesar de seus preços acessíveis, esse formato era muito criticado devido a erros de impressão, quantidade de histórias e a qualidade do papel.
Depois de tanta viagem no banquinho da lanchonete, era hora de partir. O vento sul estremecia as árvores da Praça XV, em especial a saudosa figueira. Parecia o final dos tempos, o apocalipse. Trabalhadores, mendigos e músicos de rua, todos corriam para se proteger da tormenta. Eu, para ser sincero, estava adorando. Gosto de ver as coisas fugindo do normal. Acredito que todos os fãs de quadrinhos sentem isso. O desprezo contra a nona arte sempre foi notável. Como um de seus grandes defensores, busco sua legitimação. Por mais mentes férteis!
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