Há algumas semanas, quando eu vivia um fascínio pelas ideias politeístas, comecei a escrever um texto sobre o tema. Não sei se a produção resultaria em uma crônica ou em um artigo de opinião, sei lá, faz tempo que estudo e faço a produção de textos, mas ainda sinto muita insegurança no momento de classificá-los.
O politeísmo era tudo o que rondava em minha mente naquele dia. Tudo parecia se encaixar. Eu não só via nele como a corrente filosoficamente e intuitivamente mais plausível, como já estava vendo-o como a solução para os grandes problemas da humanidade. Eu estava com esse espírito até minha psicóloga, também interessada nesse assunto, trazer algumas elucidações que frearam meu ímpeto: o politeísmo também cometia atrocidades, e ainda hoje existe o politeísmo praticante, onde, ao prestarmos atenção, não há um “paraíso terreno”.
A destruição desse sentimento foi muito frustrante, admito, mas eu sempre optarei pela verdade. Continuarei pesquisando e estudando temas que me dão mais vontade de viver. De qualquer forma, é muito interessante notarmos o quão pode ser perigoso o caminho que percorremos no plano ideológico. Veja o caminho que eu seguia no meu texto de poucas semanas atrás:
- “De início, gostaria de trazer ao debate um ponto chave do meu posicionamento e minhas opiniões sobre o sobrenatural. Eu honestamente não acredito na necessidade de existir um criador de tudo. A ideia de que exista um criador da vida - e não do mundo material - me causa menos estranhamento, porém mesmo essa não "entra na minha cabeça”. Em outras palavras, faz mais sentido a mim uma entidade ter criado apenas a vida. No entanto, é mais verossímil para mim a vida ter surgido através de um acontecimento cuja explicação científica ainda não existe. Uma reação química, um evento biológico ou sei lá o que. Pode estar parecendo que tenho uma forte veia ateia a quem não me conhece, porém o fato é que tenho uma fé gigantesca no mundo espiritual.
Dito isso, vale ressaltar que não sigo nem adoro nenhum Deus porque já tive surtos com esses pensamentos e, hoje, eu não condiciono minha vida em função de nenhuma entidade espiritual e seus representantes. Refletindo sobre essas má experiências, constato que as projeções da realidade que eu criava em minha mente eram errôneas. Ademais, eu creio que a imensa maioria das versões do sobrenatural criadas pelos humanos também são errôneas. Portanto, não aceito que ninguém me diga o que eu devo fazer com base em preceitos do sobrenatural É por isso que o laicismo vem me atraindo cada vez mais. Eu acredito muito na existência de deuses, entidades espirituais superiores, mas não aceito que ninguém me diga como esses seres são.
Eu acredito que se você faz um pacto com um Deus, você deve ter a honra de cumpri-lo. Aliás, eu altamente recomendo isso. Quem somos nós para desonrarmos um Deus. E é por isso que muitos monoteístas, ávidos por honrar seu Deus, atacam as coisas diferentes. Acho o monoteísmo segregador nesse sentido"
Não sei quantos possíveis leitores, principalmente os crentes, riram ao lerem isso. O terceiro e último parágrafo é de assustar, se pensarmos como seria a continuação do texto. Sim, esse sou o eu ideológico de poucas semanas atrás. Confesso que sinto vergonha ao compartilhar isso, mas acredito que as reflexões as quais posso causar com isso compensam o vexame.
Isso só me faz ver com mais nitidez como a humanidade tem uma tendência em se radicalizar em uma ideologia, corrente de pensamento ou religião, a ponto de cometer atrocidades por ela, quando, de fato, um faro de cunho democrático pode ser mais frutífero. Tenhamos mais cautela antes de tremular uma bandeira em nome de uma ideia.
Além disso, faz-me lembrar do fato de que eu sou um ex-comunista. Eu seria um legítimo soldado bolchevique no início do século passado, antes de constatar que o mundo comunista, na verdade, não foi um “paraíso terreno”. Porém, vale ressaltar, ainda guardo princípios do marxismo, os quais vejo como válidos.
O mesmo ocorre com o politeísmo. Passaram-se alguns dias, minha ideologia curiosamente mudou, mas ainda guardo a intuição e a crença de que existem deuses.
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