O indígena caminhava pelo costão de uma das belíssimas praias da ilha de Santa Catarina. Angustiado pelas fofocas que rolavam em sua aldeia, encontrou uma série de mariscos colados às majestosas pedras da praia. Seria uma bela refeição para a caminhava de volta para sua casa. A perspectiva da barriga cheia não consolava o rapaz, que era motivo de chacota pelos guerreiros da sua tribo. Ele não conseguia engravidar sua parceira, e seus companheiros não perdoavam. Ora, um dos mais nobres guerreiros, caçadores e pescadores da tribo não conseguia procriar? Seria isso um castigo dos deuses?
As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Mal percebia a quantidade de marisco que caía pelos cantos de sua boca. Um siri picava seu pé, e ele, um guerreiro acostumado à dor, sequer reagia. Mas junto à ele estavam duas tainhas e um pedaço de caça, o que ainda era uma prova de seu valor. Em uma manhã, carregava uma boa quantidade de comida para alimentar seus familiares e amigos. Sim, ele ainda podia resgatar a sua honra!
Até que ele ergueu seus olhos para o horizonte, para pedir misericórdia aos deuses, quando avistou alguns pontos pretos no mar. Não eram baleias. Agora seu desespero tomava proporções catastróficas. Estaria ficando louco? Ou eram as divindades dos mares? Estariam ali para acudi-lo? O medo e o respeito perante tais entidades era enorme, entretanto ele decidiu ficar na praia para ver o que aconteceria. Tinha paciência e comida. Logo decidiu assar uma de suas tainhas e orar aos deuses do mar.
Nesse momento de intensa atividade cerebral, não esqueceu de fumar tabaco para aprimorar seu espírito. Naquele momento, todas as atenções do mundo espiritual estavam voltadas para esse guerreiro indígena. Ele dançava, se jogava no chão, erguia os braços para os céus para que tenham misericórdia de sua alma. Até que suas intensas orações, somadas à quantidade de tabaco fumado, levaram o rapaz a um transe. Desmaiado, sonhou com sua família, com filhos, com paz, comida e uma existência harmoniosa perante o mundo espiritual.
Sonhava que estava transando com sua mulher, até que, por não sentir o prazer carnal, deu-se conta de que estava no mundo dos sonhos. Aos poucos foi abrindo os olhos, enquanto o sol do verão queimava sua pele. Ainda estava mais no mundo das ideias do que na realidade terrena, e tinha esquecido dos pontos pretos no horizonte do oceano. Até que… Bum! Um estrondo enorme fez o indígena sentir um imenso frio na espinha. Era uma série de estruturas enormes, bizarras, estranhas, no mar, que provocavam estrondos enormes. O indígena estremecia tal qual um cachorro presenciando fogos de artifício.
A guerra naval continuava a todo vapor, porém aquilo era demais para o guerreiro indígena. Sejam aquilo deuses, animais, ou até homens em embarcações sofisticadas, aqueles barulhos estavam levando o rapaz à loucura. Fugiu para o mangue, onde se sentou na beira de um rio. Estava tão inerte que não percebeu um jacaré se aproximando. Quando finalmente avistou o animal, teve apenas tempo de tacar sua caça a uma meia distância para que o réptil se afastasse.
Já entardecia quando o guerreiro indígena chegou à sua aldeia. Lá todos os habitantes logo perceberam a inquietude do rapaz, que foi de imediato ao encontro do chefe e do xamã. Ao redor de uma fogueira, os três fumaram tabaco e iniciaram uma reunião. O guerreiro indígena, gaguejando, explicava o que viu, mas o chefe da tribo demonstrou uma enorme falta de empatia:
Ora, nosso guerreiro, além de infértil, está ficando maluco!
E logo o chefe soltou uma risada que serviu como um soco no estômago do jovem. Mas, para sua sorte, o xamã demonstrou uma maturidade mais elevada:
Isso é uma tremenda falta de respeito, caro chefe. E se essa loucura tiver uma fonte de verdade? Você estará cometendo uma grande injustiça com nosso guerreiro!
Logo o assunto virou a grande notícia na aldeia. Todos falavam sobre o jovem guerreiro, que parecia estar enlouquecido. Nem mesmo sua companheira estava levando ele a sério. Pior, estava abandonando-o.
O rapaz deitou em sua rede e esperou o amanhecer, e, apesar de toda humilhação, ele sentia que tinha recebido uma grande missão pelos deuses. Logo ao nascer do sol, ele correu em direção a aldeia de uma tribo rival. Com ornamentos e pinturas corporais que sinalizaram um contato de paz, ele queria saber se essa tribo rival tinha avistado algo semelhante.
Para chegar a essa aldeia rival, o guerreiro indígena tinha que subir um morro. Correndo, chegou ao topo, onde decidiu comer frutas e fumar tabaco. Estava orando aos deuses quando sua prece foi interrompida com mais um estrondo, semelhante ao que ouviu na praia no dia anterior. Seu corpo estremeceu. A aldeia rival estava sendo atacada. O rapaz desceu o morro e se aproximou da aldeia. Lá, ele viu seres estranhos, de uma cor branca, com vestimentas bizarras, portando canos trovejantes. Eles atearam fogo nas cabanas e matavam os indígenas rivais.
Aquilo tudo era suficiente, ele tinha que avisar sua tribo, era essa a sua missão! Mas seus familiares e amigos não o levavam mais a sério. Transtornado, decidiu partir. Atravessou a ilha, tomou uma embarcação com uma aldeia aliada, partiu para o continente. De lá encontrou o início do Caminho do Peabiru, que leva até o Império Inca. Sua missão era avisar todos os povos. Os deuses já o incubiram.
Corra, guerreiro, corra!
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