Josué Rosa caminhava apressado em frente à Igreja de Sant’Anna, que fica na Praia da Armação, em Florianópolis. A igreja tinha sido inaugurada havia uma semana, em 1772, e no momento era uma atração imperdível para todos os moradores espalhados pela Ilha de Santa Catarina. Inclusive estavam lá familiares de Josué, moradores da região da Lagoa da Conceição, que não apareciam havia dois anos, mas foram ignorados pelo sujeito. O pescador Josué fechou a cara e seguiu seu rumo, com uma mão segurando um cachimbo e, a outra, carregando um robalo ainda vivo.
O enorme robalo agonizava em seus últimos minutos de vida, e Josué pensava que ele estava morto. Entretanto o peixe teve um violento espasmo que chegou a surpreender até mesmo o experiente pescador, fazendo-o derrubar seu cachimbo. É claro que isso fez o indivíduo explodir de raiva, posto que ele já estava bem mau-humorado antes disso, e também fez seus familiares, vingativos, caírem em gargalhadas.
É compreensível o comportamento de Josué em função de três motivos: ele não suportava mais a companhia de seu colega alcoolizado no rancho de pesca, começava a sentir uma dor de barriga e, por último, acabava de perder seu último tabaco que caíra do cachimbo. Ele só queria chegar em casa, onde havia um confortável banheiro. Já tinha evacuado no mato duas vezes, coisa que detestava.
Após trinta minutos de caminhada, Josué finalmente chegou em casa. Isabel Rosa, sua mulher, estava focada na renda de bilro quando ouviu o barulho da cerca se abrindo. A rendeira sentiu então um frio na barriga: como estaria seu marido? Ela apanharia naquele dia? Pela força e velocidade com que a cerca foi fechada, aquele seria um dia “daqueles”.
Esperta, Isabel de imediato sugeriu ao filho Joaquim que fosse correndo para o quarto dele. O adolescente também já entendera tudo, e assim o fez. A dona de casa lembrou de orar mentalmente enquanto ouvia palavras de baixo calão vindas do jardim. Enquanto pedia proteção à Virgem Maria, seu marido surgiu na porta e, literalmente, jogou o robalo em um canto da sala. Depois, foi correndo para os fundos da casa com uma mão cobrindo as nádegas. Era no jardim de trás da casa onde ficava o banheiro, uma estrutura de madeira pobremente construída.
Dali passaram-se quinze minutos, momento em que Isabel recorreu a três santos diferentes, até que Josué voltou para a sala de casa. Com um pedaço de pau na mão, surrou a mulher de forma covarde. O motivo? Ela havia esquecido de preparar o café.
Joaquim, o filho de 15 anos, também não escapou da surra. Era chamado de vagabundo e preguiçoso por seu pai.
A Virgem Maria não protegeu os dois.
Esse era um dia comum na casa dos Rosa. Josué não era um cara muito bem humorado, portanto a violência era recorrente no lar.
No dia seguinte, ao meio-dia, Isabel estava cozinhando em casa enquanto seu marido e filho foram para a praia, no rancho de pesca. Lá o adolescente recebeu uma proposta sedutora: algumas moedas de prata em troca de ajuda na caça às baleias na temporada. Quando aceitou a proposta, ficou tão feliz que voltou correndo e cantarolando para casa.
Ao receber a notícia, Isabel ficou desesperada, pois sabia que essa era uma atividade perigosa. Já tinha ouvido falar de pescadores que se acidentaram ou até mesmo faleceram tentando matar baleias. Além disso, ela mesmo deduzia que isso era arriscado, lembrando das vezes que observou seu marido participando da caça. Com uma colher de pau, mexendo no robalo que cozinhava na panela, ela insistia:
Não vai, meu filho! Nós não precisamos disso! Porque você não procura algo nas plantações de cana, algodão ou café da região? A caça não combina contigo!
Minutos depois, Josué, o pai de família, chegou na casa. Ele viu a preocupação de sua mulher, a empolgação de seu filho, e ficou angustiado. Sim, a caça às baleias de fato era uma atividade perigosa. Estava profundamente preocupado com seu filho, mas precisava manter o respeito no círculo dos pescadores. Não tinha coragem de impedir seu filho. Quando sentiu que ia chorar, correu rapidamente ao banheiro. Não podia demonstrar essa fragilidade aos seus.
Porém a ambição do adolescente falou mais alto. Semanas se passaram até que chegou o grande momento. O pároco da recém inaugurada igreja estava lá abençoando as embarcações, e Isabel, angustiada mãe, apoiava-se no religioso, perguntando se tudo iria correr bem. O padre, por sua vez, garantiu que a caça seria bem sucedida e sugeriu à mulher que rezasse uma novena pela Nossa Senhora dos Navegantes. E assim a devota Isabel planejava fazer.
Estava frio e ensolarado quando três baleeiras (barcos especiais para a atividade) saíram em busca das baleias. Como era a primeira vez do rapaz, ele e seu pai Josué ficaram na embarcação mais nova e bem conservada.
Os arpoadores estavam todos preparados. Josué estava ajudando a manusear a vela, enquanto o menino Joaquim contribuía nos remos. Logo os caçadores encontraram uma vítima, e lançaram-lhe os arpões, que eram presos por um cabo às embarcações. É comum que as baleias, ao serem atingidas, arrastem os barcos por um tempo até que, exaustas, deixavam-se aproximar das embarcações. Então, nesse momento, os baleeiros atacam a vítima com lanças de ferro.
Os caçadores das três baleeiras gritavam, exultando de alegria. Pulavam, se empurravam e jogavam água uns nos outros. Para eles, era a melhor parte, a de atacar com lanças o animal exausto. Josué estava muito ocupado com a vela, pois o vento aumentava e as ondas também. O pai não viu seu filho, encantado pela situação, abandonar os remos e pegar uma lança. Os outros pescadores estavam tão eufóricos que também não notaram.
O adolescente estava na beira do barco, pronto para atirar a lança na baleia. Um vento forte surpreendeu a todos, carregando a embarcação para mais perto da baleia. Quando Joaquim se esgueirou para fazer o ataque, a baleia, assim como o robalo que sacudiu na mão de Josué, se agitou violentamente e bateu na baleeira, derrubando o garoto na água gelada. Com uma última explosão de energia, a baleia abriu a boca e engoliu Joaquim, assim como Jonas, da Bíblia.
Uma semana depois, a triste e trágica notícia chegou aos quatro cantos da ilha. Não só o garoto fora engolido pela baleia franca, sua mãe estava sumida há exatos sete dias, e o pai estava à beira da loucura.
Josué dava sinais preocupantes de que estava perdendo a sanidade. Nos primeiros dias, evitava entrar na nova igreja, pois a argamassa de sua construção era feita com óleo das baleias. Além disso, destruíram um poste de iluminação pública, pois a luz era acesa no óleo de baleia. A comunidade torcia para que ele recuperasse a saúde mental e, nos últimos dias, ele vinha melhorando. Quando aparentemente ele se recuperou, decidiu dar início às buscas pela sua esposa amada.
A comunidade já tinha procurado Isabel nas diversas estradas e trilhas da região, mas em vão. No quinto dia, desistiram. Foi quando Josué começou a recuperar a sanidade e decidiu continuar, sozinho, as buscas.
E então, no sétimo dia, Josué estava imerso na mata atlântica, já a centenas de metros de uma trilha pouco usada na região. A cada passo que se distanciava da trilha preocupava-se mais, não queria se perder na mata. Quando já estava desistindo, ouviu o som distante de uma sinistra gargalhada vindo do leste. Foi caminhando depressa em direção à excêntrica risada, que ia aumentando de volume. Até que notou uma clareira natural. Sentiu uma chama de esperança e correu rapidamente para o local.
O que Josué veria ficaria marcado na sua memória para sempre. Era Isabel, sua mulher, completamente ensandecida, com os seios à mostra, dando voltas em uma fogueira, dançando de forma frenética e enaltecendo os nomes de deuses pagãos. A bruxa logo atacaria a religião:
Virgem Maria, você é inútil! Não impediu meu garoto de morrer no mar! Eu te amaldiçoo!
Josué, estarrecido, mas ainda apaixonado pela mulher, gritou para Isabel. A bruxa virou-se, cheia de adrenalina, coração a mil, e sentiu medo. Apesar de saber que seu marido a amava, ele ainda era um cristão, e poderia entregá-la às autoridades. Então, atrás da fogueira, em meio a fumaça, Isabel foi se transformando em um gato-do-mato negro. O coração de Josué batia disparado quando o animal soltou um feroz rosnado, virou-se e sumiu na vegetação.
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